Terra, terra, gentil chão

Fortaleza, 27 de fevereiro de 2010

Casa
Foto: Débora Medeiros

O caos da minha mesa de trabalho conta das últimas andanças: bolsa de viagem, souvenirs, documentos, revistas em alemão e português, declarações da UFC, livros (subespécies como gramáticas, romances, poemas, didáticos) e anotações se misturam em um monte de papel que só faz sentido pra mim, que o construí ao longo desses dias.
Faz quase duas semanas que estou de volta a Fortaleza. Pouco a pouco, a familiaridade da terra natal vai se infiltrando pelos meus poros, enquanto uma melancolia prematura se instala no meu coração – o ano mal começou e já me entristeço, ao imaginar que devo deixar novamente a cidade em 2011.

Todos os dias desde minha chegada têm tido um gostinho de boas-vindas. Ele se esconde na música que toca no meu mp3player, nos ônibus azuis que surgem no horizonte e me levam por aí, no calor de trinta graus, nas Havaianas nos pés, nos domingos silenciosos e meio tristes de casa, no céu azul de (poucas) nuvens branquinhas, nas blusas de alça,  no sobressalto anti-assalto, nas cores quentes, nas árvores balançando ao vento, nos prédios cheios de lembranças, nas ruas, nas mudanças sutis em tudo e, é claro, nas pessoas.

Todos os dias, revejo um amigo diferente. E é ouvindo as histórias deles, suas lembranças, seus sentimentos e planos, que me sinto mais em casa. É bom ver como todos mudaram um pouco que seja, sem deixar de continuarem os mesmos. Não me canso de caminhar pelas ruas do Benfica, reconhecendo tantos rostos e recebendo tantos abraços e embarcando em possibilidades de prosear um pouco, seja na cantina da Comunicação Social, seja num dos meus muitos bares favoritos no bairro, sem me preocupar com o tempo que passa.

Ao contrário do que acontece com muita gente que volta de um período morando fora, não sinto aquela repulsa provinciana de achar que tudo lá é melhor que cá. Fortaleza é linda, apesar dos pesares e com eles.

Quando penso em Düsseldorf, com seus bondes que cruzam a cidade em minutos, seus parques que mudam de cara proporcionalmente à neve que cai, suas regras mais que menos seguidas, seus séculos de história, suas pessoas amigáveis-e-recolhidas, sinto uma coisa boa, de quase casa. Mas é só quase. Voltar a morar lá por mais tempo seria bom, mas melhor seria poder ficar aqui. A terra natal é sempre a terra natal, cheia de idiossincrasias conhecidas, de família, de ruas percorridas incontáveis vezes, de amigos – que, não importa o que aconteça, terão sempre vivido comigo a juventude. Nada pode ligar tanto uma pessoa a outra.

As seis semanas que passei na Alemanha me mostraram que, por mais que me sinta bem em outro lugar, não quero viver pra sempre longe daqui. A vida ideal, pra mim, seria feita de idas e vindas, um pedaço lá – sendo “lá” muitas distâncias diferentes -, outro cá. Quero histórias pra contar, fragmentos de vida, imagens gravadas na retina. E quero reparti-los com aqueles que amo, numa mesa de bar, com os barulhos e pessoas da cidade passando por nós.

A terra natal guarda como nenhuma outra a magia dos retornos felizes.

PS: Olhar pela janela de casa e ver de novo a paisagem mutante desses 21 anos, um céu infinito, prédios, ruas, carros e luzes, faz cócegas no coração.

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2 opiniões sobre “Terra, terra, gentil chão

  1. nascemos no Cear??, um lugar de passagem. estamos eternamente condenados a ir e voltar. com todas as dores e alegrias que isso pode implicar.e o mundo est?? a?? pra voc?? conquistar, palmilhar e traz??-lo de volta pra c?? na bagagem.

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