Heinrich Heine: o poeta do banzo

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Estátua e grafite de Heinrich Heine na Universidade de Düsseldorf, rebatizada como Universidade Heinrich Heine em 1988. (Débora Medeiros)

Comprei muitos livros na Alemanha, mas só comecei a ler um enquanto estava lá: Deutschland. Ein Wintermärchen ou, em tradução livre, Alemanha. Um Conto de Fadas Invernal. Formado por uma série de poemas, o livro foi publicado em 1844 por Heinrich Heine, depois de uma viagem pelo país.

O nome do poeta é quase onipresente em Düsseldorf; foi lá que ele nasceu, apesar de ter se mudado logo para Hamburgo. A Universidade se chama Heinrich Heine, os professores de alemão citam sua obra, os guias turísticos sugerem uma visita ao Heinrich Heine Institut e a casa onde ele nasceu continua de pé.

 

Nem sempre foi assim: enquanto era vivo, Heine foi perseguido pela censura no próprio país e, por isso, se exilou na França. Voltou poucas vezes à Alemanha. Deutschland. Ein Wintermärchen é fruto de um desses retornos, em 1843, quando o poeta tirou algumas semanas para visitar sua mãe e seu editor, Julius Campe. O tom é agridoce, como o de quem volta pra casa e subitamente se lembra dos motivos para deixá-la.

 

Acabei não tendo tempo pra ler o livro todo ainda na Alemanha e só hoje consegui terminá-lo. Ler um pedaço lá outro cá acabou sendo uma experiência única. Provavelmente não era a intenção do poeta, mas, mais do que as críticas à situação política alemã (em pleno domínio da Prússia), sobreviveu a perspectiva única do “viajante na própria pátria”, aquele que olha pra tudo com um misto de espanto e familiaridade, por ter passado tanto tempo fora, porém nunca esquecido a vida na terra natal.

 

Nunca passei mais de dois meses longe de casa, mas penso em fazer isso em breve. Por isso, mergulhar nas impressões de Heine foi precioso pra mim. Ao comprar o livro, esperava uma dúzia de versos bonitos sobre as cidades alemãs. Encontrei, ao invés disso, passagens que me lembraram do conforto de ouvir a língua materna, rever lugares cheios de significados pessoais, reconhecer costumes, encontrar os amigos que ficaram e sentir-se em casa, apesar dos pesares. Todas essas sensações foram confirmadas quando cheguei em Fortaleza.

 

Heine cresceu como homem e como artista quando foi morar em Paris. Conheceu Karl Marx, ajudou a criar o formato atual dos cadernos de cultura e contribuiu para reaproximar a Alemanha e a França, em meio a uma rivalidade que se estendia há décadas. Ainda assim, não resistiu à vontade de percorrer novamente a terra natal, mesmo durante os rigores do inverno. Ele explica em versos por quê:

 

Ansiei até pelos lugares,
Ich sehnte mich nach den Plätzen sogar,
Por cada estação da Paixão,
Nach jenen Leidensstationen,
Onde carreguei a cruz da minha juventude
Wo ich geschleppt das Jugendkreuz
E a minha coroa de espinhos.
Und meine Dornenkronen.

 

Como eu disse, agridoce. Que nem a saudade de casa – que a gente também conhece como banzo ou, na língua do poeta, Heimweh.

 

PS: Uma curiosidade sobre Heinrich Heine é que ele era muito admirado por escritores brasileiros como Machado de Assis, Raul Pompéia e Manuel Bandeira. Um poema dele serviu de inspiração para O Navio Negreiro, o mais famoso poema abolicionista de todos, escrito por Castro Alves.

 

PPS: Quem lê em alemão encontra Deutschland. Ein Wintermärchen pra baixar aqui.
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