Tudo se ilumina à luz do passado

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Pertenço à primeira geração de cearenses da minha família. Foi meu pai quem se mudou para Fortaleza, seguido pela minha mãe quando eles se casaram. Os dois vêm da mesma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, Florânia, se conhecem desde crianças e foram morar em Natal na adolescência. O grosso dos parentes de ambos os lados ainda mora em uma dessas duas cidades, de modo que, aqui em Fortaleza, somos basicamente nós quatro – eu, minha irmã, meu pai e minha mãe – e mais ninguém.

Passei todas as minhas férias escolares em Natal, na casa da minha avó materna. Apesar de eu ter memórias de infância ali, atualmente visitar a cidade (coisa que fiz essa semana) me remete a um passado mais remoto: a juventude dos meus pais. Minha mãe me mostra os lugares onde estudou e trabalhou, a igrejinha onde se casou, os trajetos dos ônibus que ela tomava. As visitas que, invariavelmente, aparecem na casa da minha avó quando estamos lá recordam causos de décadas atrás, fragmentos dos meus pais aos 17, 18 anos. 

De certa forma, é como mergulhar em um universo paralelo. E se meus pais tivessem ficado em Natal, como eles seriam hoje? Se pudessem sair com os amigos todos os fins de semana, se tivessem que se inserir em almoços de domingo com os irmãos e os filhos dos irmãos, se estivessem no meio do misto de fogo cruzado e rede de segurança tão típico das famílias grandes, seriam mais ou menos felizes? Às vezes, sinto-os tão sozinhos aqui. Eles têm colegas de trabalho, mas não têm amigos de infância em Fortaleza. Não têm aquelas pessoas que transportam a doçura do passado para o presente, ligados a eles por nada além de vivências comuns. Os amigos são vias de escape contra o lado massacrante do cotidiano. Sem eles, para onde fugir? 

Se meus pais tivessem ficado em Natal, como eu seria? Teria feito Jornalismo? Sentiria essa pulsão por percorrer o mundo? Gostaria das coisas que gosto? Se não tivesse os amigos que tenho, e sim outros; se tivesse me apaixonado por pessoas diferentes; se frequentasse outros lugares, teria a mesma personalidade? Enfim, se a cidade que descobri sozinha nos primeiros suspiros de independência adolescente tivesse sido Natal, ao invés de Fortaleza, o que teria mudado? Só posso imaginar as respostas pra tantas perguntas, mas cada vez que vou a Natal trago ao menos uma certeza: somos a cidade onde crescemos, inevitavelmente.

PS: O título é uma referência ao livro Tudo se ilumina, do americano Jonathan Safran Foer, relato meio autobiográfico meio fantástico da busca do autor por suas raízes ucranianas, guiado pela indagação: se seus antepassados não tivessem fugido do nazismo rumo aos EUA, como seria sua vida na Ucrânia? Por coincidência, comecei a ler esse romance em Natal, na varanda da minha avó, onde li tantos livros que hoje são parte de mim.

PPS: Quando viajávamos de carro para Natal, meu pai gravava fitas K7 que preenchiam o percurso de oito horas inteiro. Uma das minhas favoritas era a que tinha esta música do 14 Bis. Nossa linda juventude, página de um livro bom. Devo estar ficando velha. Essa frase não me sai da cabeça.
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