A juventude é uma arma quente

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Foto: Perto do gabinete do reitor, uma vista da Reitoria que eu nunca tinha enxergado antes. Essa UFC ainda tem muito o que revelar… (Débora Medeiros)

Esqueci o relógio em casa no dia da minha colação de grau – 25 de março de 2010. Estava com a cabeça em outro lugar, acho, curtindo aquela sensação que a gente só tem no próprio aniversário: é um dia comum pro resto do mundo, mas, pra nós, quer gostemos ou não de festa, a rotina parece reluzir misteriosamente. Fecha-se um ciclo.

Sentia isso também, quando peguei o ônibus de sempre, rumo à Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Colação de grau especial é assim: no resto da Academia, a vida continua, ninguém vai encher a Concha Acústica, poucos vão assistir ou mesmo saber. Mas, no gabinete do reitor, havia 24 corações em festa.

Meu único convidado na cerimônia foi o professor Riverson Rios. Esperamos sentados na antesala do gabinete, falando da vida, dos respectivos passados e do futuro. Atencioso como só quem é docente por vocação consegue ser, ele me lembrou até o último minuto por que me sinto em casa no curso de Comunicação Social. E como quero voltar pra lá um dia.

Em pouco mais de uma hora, estava tudo feito: a ata fora assinada, o juramento repetido em uníssono, reitor, pró-reitor de graduação, professores e recém-formados discursaram. E pronto, virei jornalista. Deixei de ser café-com-leite. Não se trata mais de definir que cadeiras fazer, se permaneço ou não no estágio atual, onde almoçar. O ano se estende, enigmático, diante de mim, uma transição de 12 meses entre o fim da monografia e, querendo Deus, o início do mestrado. Onde trabalhar? Como conciliar com outros projetos, outras paixões? E, depois de 2010, a vida, não sei até quando, se estende na imprevisibilidade de uma só pergunta: vou voltar à UFC um dia? Terei a persistência, a paciência, a sorte para retornar como professora? Por mais que eu ame o jornalismo e queira vivenciá-lo por muitos anos, tenho a certeza de que, fatalmente, só me sentirei completa quando estiver ensinando no lugar onde aprendi tanto sobre a vida adulta.

Porém, mais uma vez, a rotina só reluzia, sem de fato mudar. O sol do Benfica era o mesmo, o sorriso das pessoas conhecidas, os abraços – de parabéns ou de olá. A Castelinho, ali na esquina, continuou sendo o ponto de convergência dos afetos. Gente que eu não via há semanas ou com quem falo todos os dias se sentou à mesma mesa, para montar o Canhotos, fanzine coletivo que começamos no primeiro semestre. Conversas, confissões, brincadeiras e muito amor se embaralhavam na miríade de pedaços de papel pela enésima vez.

E o fato de não haver uma ruptura, de tudo ser feito de mudanças tão sutis, confirma minhas suspeitas de que não há regras ou figurino fixos pra vida adulta. Os planos malucos não precisam acabar, não preciso me resignar a trabalhar com o que não gosto e cresci o suficiente pra equilibrar felicidade e responsabilidades.

Na verdade, a sensação é de que o melhor vai começar agora, que a diversão vai é ficar mais consciente. E aí, o que fazer? Transformar a cidade no meu playground ou explorar outras paragens? O futuro é um mistério e nada é tão libertador quanto um caminho cheio de bifurcações. E, se pra John e Belquior, “a felicidade é uma arma quente”, cresce a certeza de que a minha juventude também é.

No fim do dia, atravessei a rua pra pegar o ônibus com Bruno Reis. Os carros passavam furiosos ao nosso redor, a lua já ia alta no céu. A noite tinha sido um flashback caleidoscópico não só pra mim. É o Bruno, com aquela leveza sutil que sempre amei ao longo dos anos, quem observa: “Nem parece que o tempo passou, né?” É, nem parece.

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