Bênçãos

Numa noite chuvosa de quinta-feira, dois poetas da vida confirmam o que eu já suspeitava:

Belchior – Antes do Fim

Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais

Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo
Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
– Viver é que é o grande perigo

Bob Dylan – Forever Young

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you

May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you

May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift

May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

Belchior e Bob Dylan não podem estar errados. É por essas e por outras que quero ver o mundo sempre com olhos jovens. Guio as escolhas presentes, pensando nesse futuro.

May I stay forever young?

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Há que mudar, mas sem perder a essência jamais

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Essas escadas meio art déco são um dos meus lugares favoritos na Rádio Universitária. (Divulgação)

A Rádio Universitária entrou no ar no dia 15 de outubro de 1981, depois de um mês de testes e pelo menos dois anos de articulações políticas – um jeito bonito de dizer que foi preciso muito jogo de cintura pra colocar no ar, em plena ditadura, uma emissora com coragem de abrir o microfone para vozes da esquerda, movimentos sociais, sindicatos, acadêmicos, artistas e estudantes.

Transmitindo direto da Reitoria de uma universidade federal – embora, por essas coisas da vida e das legislações em tempos autoritários, pertença formalmente à Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), entidade privada – ela fez dos saberes de professores e estudantes sua matéria prima, arrebanhando colaboradores e transformando bolsistas em profissionais. De tão apaixonados, estes últimos viraram funcionários e trabalham lá até hoje, cada um dono de uma história pessoal rica, inevitavelmente entrelaçada à da emissora que os acolheu na juventude.

Vindos de uma geração que fez questão de combater o regime militar, em passeatas, ocupações, apurações jornalísticas e seleções musicais, eles lutaram outras tantas batalhas para manter a Rádio aberta por 28 anos, em breve 30. A primeira foi quando o reitor José Anchieta Esmeraldo Barreto, que tomou posse em 1983, decidiu fechar o setor de jornalismo da emissora. Muitos funcionários foram transferidos para outros setores da UFC, onde não se sentiriam em casa e, assim, não poderiam desafiar ninguém. Outros permaneceram na Universitária FM, com aquela sensação incômoda de que algo estava faltando. Mas foi só Anchieta deixar o poder, substituído pelo professor Hélio Leite, que eles não demoraram a assumir as antigas funções e retomar a liberdade de expressão roubada, agora em uma casa nova – aquela que a maioria de nós conhecemos, na avenida da Universidade, 2910.

Depois, veio o governo Collor, que, entre os funcionários da Rádio Universitária, não é lembrado “apenas” pelo confisco das cadernetas de poupança e pelo impeachment. Foi também enquanto o alagoano estava no poder que foi extinto o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa (Sinred), o que acarretou o fechamento de emissoras universitárias em todo o país. Para que o mesmo não acontecesse com a nossa, bolsistas, funcionários, colaboradores e admiradores foram às ruas e organizaram atos para que a Rádio Universitária continuasse de portas abertas.

Já em 2006, pleno governo Lula, um susto: os jeitinhos usados para driblar a ditadura acabaram cobrando seu preço. A Rádio Universitária foi considerada irregular pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e fechou as portas por alguns meses. A situação foi contornada logo, quando o status que a emissora já exercia antes, o de abrigo para diversos projetos de extensão da UFC, foi formalizado. Surgiu o Nuproex (Núcleo de Divulgação em Radiodifusão de Programas em Extensão da Universidade Federal do Ceará), mas, enquanto isso não acontecia, os funcionários não cruzaram os braços e organizaram seminários, reuniões, oficinas – a única maneira que encontraram de manter a Rádio na pauta dos assuntos do dia.

É claro que, nos intervalos entre uma turbulência e outra, muita coisa boa aconteceu: programas inovadores foram criados, novos bolsistas ingressaram na Rádio, prêmios foram conquistados, parcerias nasceram, ouvintes foram cativados. E muita coisa boa continua a acontecer agora, neste período de águas mais tranquilas. É por isso que a Rádio Universitária fascina: graças às paixões e projetos que a movem, está em constante ebulição, mas não perde a sua essência.

Texto publicado publicado originalmente no blog do Jornal Jabá, como parte da cobertura do aniversário de 28 anos da Rádio Universitária.

Ouça a Rádio online.

Fortaleza Lado B

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Às vezes esqueço que essa cidade tem praia. O Yuri Leonardo, que tirou essa foto, é quem mais me lembra disso.

Nem peguei direito esse tempo, mas ainda lembro que os LPs, especialmente os singles, muitas vezes sofriam de múltipla personalidade: de um lado, os sucessos comerciais que tocavam na novela e nas rádios; do outro, faixas mais experimentais, viajantes, inovadoras. Duas faces do mesmo artista. Hoje, que Fortaleza completa 284 anos, acho que não há melhor metáfora pra expressar exatamente o que me faz amar essa cidade. Só que, ao invés de um lado B apenas, acho que vivemos muito mais nuances. Se duvidar Fortaleza tem até lado Z.

O lado A é o mais visível. Está nos outdoors, que anunciam as mesmas festas caras, com as mesmíssimas atrações – a única coisa que muda é a data. Está também nas Hilux com adesivos de “sou chicleteiro”, nos shopping centers assépticos, nos paredões de som, nas cercas elétricas, nos muros altos e no vestuário-anúncio, onde a marca da roupa chama mais a atenção do que quem a veste. Essa é a Fortaleza que não me atrai – provinciana ainda que viva nas pontes aéreas, homogênea em sua meia dúzia de sobrenomes conhecidos. Para o lado A, só ele existe. O que está fora dessa esfera é, no máximo, motivo pra querer ir embora.

O caos das outras Fortalezas é o que cativa de verdade. Nem tudo é lindo, nada é perfeito, mas é exatamente isso o que atiça os espíritos aventureiros a abraçar a cidade como sua, criticando-a, mas também agindo. É a Fortaleza dos movimentos pela democratização da comunicação, contra a homofobia, em defesa dos direitos humanos, pelos direitos das pessoas com deficiência, de combate à prostituição infantil; a Fortaleza da bicicletada, do transporte coletivo, da preservação do meio ambiente, dos patrimônios históricos, dos passeios no Centro; a Fortaleza dos poetas, dos pintores, dos malabaristas, dos grafiteiros, dos fotógrafos, dos atores, dos contistas, dos zineiros, dos músicos, dos performers, dos boêmios e dos estudantes. É a Fortaleza de quem ousa, de peito aberto.

É nessa Fortaleza que eu gosto de morar, descobrindo e redescobrindo gente que vale a pena a cada passo. Não acho que me enquadro totalmente em nenhum desses grupos, mas o todo me acolhe e me encanta. Essa diversidade faz com que eu me sinta em casa e alimenta a vontade de fazer minha pequena parte pra que a cidade esteja ainda mais bonita aos 285 anos.

Pedro Bandeira: imaginação é tecnologia de ponta

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O doce Pedro Bandeira e seu bigode, indissociáveis no imaginário dos fãs. (Divulgação)

Dez entre dez jovens adultos que hoje lêem por gosto têm Pedro Bandeira entre suas memórias de infância. Quem nunca quis ser um dos Karas? Quem nunca torceu pra Isabel ficar com o Fernando, em A Marca de uma Lágrima? Quem nunca se divertiu com as sátiras bem humoradas de O Fantástico Mistério de Feiurinha?

Tive a oportunidade de conhecer Pedro Bandeira há muitos anos, em uma Bienal Internacional do Livro, aqui em Fortaleza. Ele autografou meu exemplar de A Marca de uma Lágrima e prometeu ler alguns dos meus primeiros contos, que lhe entreguei encadernados junto com uma cartinha. Pra vocês terem ideia do tempo que faz, a foto que tirei com ele ainda foi na minha velha câmera analógica! Mas Pedro já era moderno naquele tempo e, algumas semanas mais tarde, me surpreendeu com um e-mail carinhoso, dando sua opinião sobre os contos.

Pedro Bandeira volta à cidade neste ano para duas palestras no dia 17 de abril, na Bienal Internacional do Livro. Aproveitei a oportunidade para, por e-mail, puxar conversa com o escritor sobre os seus tempos de jornalista, o 6o livro dos Karas e as novas tecnologias.

Antes de se dedicar à literatura, você trabalhou com teatro e como jornalista. O que você levou dessas experiências para a sua atividade como escritor?
Pedro Bandeira: Sempre trabalhei produzindo textos, desde a adolescência. E isso, é claro, preparou-me para escrever qualquer coisa, não é? Quanto ao teatro… Não sei. Desde muito pequeno fui ator e só abandonei o profissionalismo pelo fato de esta profissão pagar muito mal. Mas, ainda hoje, volto a ser ator toda vez que dou conferências em palcos com plateias de até mais de mil professores.

Qual foi a matéria que você mais gostou de fazer, nos seus tempos de Última Hora?
Pedro: Isso foi há muito tempo. De lá saí por causa do golpe militar. Era um jovem jornalista, estudante de Ciências Sociais e ator profissional à noite. Como jovem repórter, não me lembro de ter feito qualquer matéria memorável. Logo em seguida, trabalhei em revistas de engenharia (sem entender nada do que fazia) e em uma editora de livros, esta sim uma experiência rica, onde pude fazer um jornal político chamado Jornal da Senzala, entrevistando grandes brasileiros como Plínio Marcos, Caio Prado Júnior e muitos outros. Foi nessa editora que, como editor-chefe e para meu orgulho, publiquei pela primeira vez livros de Marcos Rey e de Plínio Marcos.

Quando você percebeu que tinha vocação para escrever livros para o público infanto-juvenil?
Pedro: Pretendo perceber isto na semana que vem.

A Droga da Obediência, primeiro livro da série dos Karas, é de 1984. Desde então, a realidade dos jovens mudou bastante, mas os livros continuam fazendo sucesso, geração após geração. A que você atribui essa permanência?
Pedro: A realidade mudou? Progresso? Tecnologia? Violência? Drogas? Isso não interessa à minha Literatura. Nela eu trato das emoções humanas, e isso não muda nunca! Com Internet, com celulares, ou iPods, os adolescentes continuarão sentindo medo, esperança, paixão, raiva, ciúme, terão dúvidas, como sempre e para sempre.

Você já mencionou, em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que estava reescrevendo a 6a aventura dos Karas, porque percebeu que a primeira versão já estava desatualizada antes mesmo de ser publicada. A Internet e os avanços tecnológicos, tão presentes no cotidiano da juventude de hoje, dificultam escrever para ela?
Pedro: Está difícil, muito difícil. Meus personagens “vivem” numa época antes do computador pessoal, do celular, da Internet, dos e-mails. Certa vez redigi uma história que se baseava em tecnologia, e que iria chamar-se A droga virtual. Mas, antes de o livro ser impresso, ele  já tinha engolido pelo progresso das tecnologias. Assim, este livro foi para o lixo e de lá jamais sairá.

Como o autor deve lidar com esses elementos? É possível incluí-los na trama, sem que ela fique datada?
Pedro: No meu caso (não posso falar pelos outros), eu evito que as histórias tenham base em tecnologias, para que meu livro não fique datado. Veja você o caso dos grandes autores de ficção científica do século XX – praticamente todos os seus livros não fazem mais sentido; nenhum deles (nem Clarke, nem Asimov) foi sequer capaz de prever o computador pessoal (todos achavam que os computadores se tornariam monstros enormes, pois ninguém antecipou a invenção do ship), nem a Internet, nem o Google, nem sequer o celular! Por isso, é capaz de meus livros durarem bastante. Alguns até já se tornaram clássicos.

Você já mencionou em entrevistas que checa sempre seus e-mails e procura responder a todas as mensagens dos fãs. Já pensou em ampliar esse contato com os internautas em um blog, como fez José Saramago, por exemplo?
Pedro: Estamos na iminência da criação de um site especial, com tudo que isso tem direito. Será lançado em poucos meses.

E, já que falamos da 6a aventura dos Karas, antecipo aqui uma pergunta que com certeza vai ser feita durante a Bienal: já há uma data de lançamento definida para o livro?
Pedro: Como antecipar datas de um livro que ainda nem sei como será?

Pedro Bandeira estará na IX Bienal Internacional do Livro do Ceará em dois eventos, ambos no dia 17 de abril:

Encontro com o Escritor, das 16h30 às 17h45, no Salão O Quinze (Auditório Principal – Bloco D), com mediação do esritor Raymundo Netto.
 
Conversa com Pedro Bandeira (Brasil/SP), das 15h às 16h, na Arena Infantil O Menino Mágico (Bloco F Superior).

Creio, logo existo

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No meio das ruas medievais de Colônia, as esculturas são centenárias e o Espírito Santo é um grafite. (Débora Medeiros)

A primeira missa que assisti em Düsseldorf foi na Igreja St. Maria Rosenkranz, que ficava no bairro onde estava morando. Lembro que a cerimônia já havia começado quando cheguei e, pela maneira como algumas pessoas me olharam disfarçadamente, eu era a única desconhecida naquela comunidade. O interior da igreja era austero, o altar era simples, com uma cruz pequena suspensa por fios – como é comum em muitas igrejas católicas alemãs -, e as paredes altas estavam pintadas de azul claro e outros tons pastel.

Na pressa para compensar meu atraso, me esqueci de pegar o livro de cânticos à porta e, no começo, fiquei um pouco perdida. Mas, à medida que fui compreendendo e reconhecendo a I Leitura, o Evangelho e a Oração Eucarística, senti-me novamente em casa. Por não saber as palavras exatas em alemão, respondia tudo baixinho, em português. Pode ter sido a saudade de casa, o Espírito Santo, o dia que tinha sido particularmente bom, tudo isso junto ou nada disso, mas, no momento em que recebi a Comunhão, chorei pela primeira vez desde que tinha chegado à Alemanha, há mais de um mês, e chorei de alegria. Foi uma sensação que seria inútil tentar explicar.

Conheci muitas igrejas em todas as viagens que já fiz, mas, desde aquele dia, entrar em uma só faz sentido, para mim, se estiver havendo uma celebração. Depois de 21 anos de catolicismo praticante e convicto – não, não é mamãe que me obriga ir à igreja todo sábado 😛 -, entendi o grau de importância do ritual.

Os três parágrafos acima são extremamente pessoais e pensei bastante antes de escrevê-los e postá-los aqui. Mas, como já deu pra perceber, a Páscoa é mais que um feriadão pra mim e queria marcá-la de alguma forma no blog. Então, se você for uma daquelas pessoas que caem na balela de que religião não se discute, estou te oferecendo a chance de parar de ler aqui porque, sim, esse é um post sobre religião.

Pros que continuaram, digo que fé e ciência, para mim, caminham juntas. Sempre me interessei pelo assunto e sempre gostei de conversar sobre ele, exceto com interlocutores fundamentalistas – sejam eles religiosos ou ateus; fundamentalismo é irritante e nada construtivo. Penso seriamente em estudar Teologia no futuro ou trabalhar com isso academicamente, quem sabe. Quanto mais aprendo, mais creio.

O que me fascina é o fato de toda religião dialogar com os contextos político e histórico em que está inserida. Terminei hoje de ler o Dicionário das Religiões, de Mircea Eliade e Ioan Peter Couliano, e é impressionante como se estabelece um padrão entre religiões aparentemente tão díspares quanto o Judaísmo e o Xintoísmo, por exemplo. Retire o contexto em que estão inseridas e o que resta? Um monte de narrativas desconexas, que nem de longe teriam a força de gerar guerras, poemas, movimentos sociais, leis e códigos de conduta.

É particularmente interessante pensar em como esses mesmos contextos influenciaram a maneira como as religiões foram talhadas até a forma como as conhecemos hoje. Bastava uma corrente minoritária como a de Marcião de Sinope ter triunfado, para o Cristianismo ser completamente diferente na atualidade. Simplesmente, a Bíblia não teria o Velho Testamento inteiro, que eu considero a parte mais controversa e conservadora dos escritos que fundamentam a fé cristã. E este é só um de muitos e muitos casos. Cada concílio é uma história. E cada concílio é uma reação às mudanças do mundo onde o Vaticano está inserido, é quando os bispos se sentam pra pensar como agir diante da pressão social das novidades.

Como isso fortalece a minha fé? Saber que as religiões dialogam com a História me faz ter esperanças de que, um dia, elas estarão em maior harmonia com a sociedade. Isso torna plausível pensar que, quem sabe, eu ainda verei a Igreja Católica mais aberta quanto às questões inevitáveis sobre sexualidade, por exemplo. Já pensou quando o celibato dos padres for abolido? Há teorias de que ele só surgiu para evitar que os bens da Igreja se dispersassem entre herdeiros leigos mesmo…

Aposto que ainda assisto a uma missa celebrada por uma mulher, que ainda verei uma pastoral da minha paróquia incentivando o uso da camisinha como método contraceptivo, que casais homossexuais poderão ir à missa de mãos dadas, se quiserem. Parece irreal? Bom, não faz muitos anos que a Igreja não aceitava o divórcio. Hoje, já vi paróquias que acolhem de braços abertos casais em segunda união. Pode demorar, mas boto fé que as mudanças virão. E esse é o meu jeito de desejar muitas felizes Páscoas para todos nós no futuro.

PS: Sei que esse é um pensamento tipicamente cristão, depositar as esperanças no que há de vir. Mas, se você ainda não percebeu, adoro pensar de maneira cristã, beijos.