Creio, logo existo

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No meio das ruas medievais de Colônia, as esculturas são centenárias e o Espírito Santo é um grafite. (Débora Medeiros)

A primeira missa que assisti em Düsseldorf foi na Igreja St. Maria Rosenkranz, que ficava no bairro onde estava morando. Lembro que a cerimônia já havia começado quando cheguei e, pela maneira como algumas pessoas me olharam disfarçadamente, eu era a única desconhecida naquela comunidade. O interior da igreja era austero, o altar era simples, com uma cruz pequena suspensa por fios – como é comum em muitas igrejas católicas alemãs -, e as paredes altas estavam pintadas de azul claro e outros tons pastel.

Na pressa para compensar meu atraso, me esqueci de pegar o livro de cânticos à porta e, no começo, fiquei um pouco perdida. Mas, à medida que fui compreendendo e reconhecendo a I Leitura, o Evangelho e a Oração Eucarística, senti-me novamente em casa. Por não saber as palavras exatas em alemão, respondia tudo baixinho, em português. Pode ter sido a saudade de casa, o Espírito Santo, o dia que tinha sido particularmente bom, tudo isso junto ou nada disso, mas, no momento em que recebi a Comunhão, chorei pela primeira vez desde que tinha chegado à Alemanha, há mais de um mês, e chorei de alegria. Foi uma sensação que seria inútil tentar explicar.

Conheci muitas igrejas em todas as viagens que já fiz, mas, desde aquele dia, entrar em uma só faz sentido, para mim, se estiver havendo uma celebração. Depois de 21 anos de catolicismo praticante e convicto – não, não é mamãe que me obriga ir à igreja todo sábado 😛 -, entendi o grau de importância do ritual.

Os três parágrafos acima são extremamente pessoais e pensei bastante antes de escrevê-los e postá-los aqui. Mas, como já deu pra perceber, a Páscoa é mais que um feriadão pra mim e queria marcá-la de alguma forma no blog. Então, se você for uma daquelas pessoas que caem na balela de que religião não se discute, estou te oferecendo a chance de parar de ler aqui porque, sim, esse é um post sobre religião.

Pros que continuaram, digo que fé e ciência, para mim, caminham juntas. Sempre me interessei pelo assunto e sempre gostei de conversar sobre ele, exceto com interlocutores fundamentalistas – sejam eles religiosos ou ateus; fundamentalismo é irritante e nada construtivo. Penso seriamente em estudar Teologia no futuro ou trabalhar com isso academicamente, quem sabe. Quanto mais aprendo, mais creio.

O que me fascina é o fato de toda religião dialogar com os contextos político e histórico em que está inserida. Terminei hoje de ler o Dicionário das Religiões, de Mircea Eliade e Ioan Peter Couliano, e é impressionante como se estabelece um padrão entre religiões aparentemente tão díspares quanto o Judaísmo e o Xintoísmo, por exemplo. Retire o contexto em que estão inseridas e o que resta? Um monte de narrativas desconexas, que nem de longe teriam a força de gerar guerras, poemas, movimentos sociais, leis e códigos de conduta.

É particularmente interessante pensar em como esses mesmos contextos influenciaram a maneira como as religiões foram talhadas até a forma como as conhecemos hoje. Bastava uma corrente minoritária como a de Marcião de Sinope ter triunfado, para o Cristianismo ser completamente diferente na atualidade. Simplesmente, a Bíblia não teria o Velho Testamento inteiro, que eu considero a parte mais controversa e conservadora dos escritos que fundamentam a fé cristã. E este é só um de muitos e muitos casos. Cada concílio é uma história. E cada concílio é uma reação às mudanças do mundo onde o Vaticano está inserido, é quando os bispos se sentam pra pensar como agir diante da pressão social das novidades.

Como isso fortalece a minha fé? Saber que as religiões dialogam com a História me faz ter esperanças de que, um dia, elas estarão em maior harmonia com a sociedade. Isso torna plausível pensar que, quem sabe, eu ainda verei a Igreja Católica mais aberta quanto às questões inevitáveis sobre sexualidade, por exemplo. Já pensou quando o celibato dos padres for abolido? Há teorias de que ele só surgiu para evitar que os bens da Igreja se dispersassem entre herdeiros leigos mesmo…

Aposto que ainda assisto a uma missa celebrada por uma mulher, que ainda verei uma pastoral da minha paróquia incentivando o uso da camisinha como método contraceptivo, que casais homossexuais poderão ir à missa de mãos dadas, se quiserem. Parece irreal? Bom, não faz muitos anos que a Igreja não aceitava o divórcio. Hoje, já vi paróquias que acolhem de braços abertos casais em segunda união. Pode demorar, mas boto fé que as mudanças virão. E esse é o meu jeito de desejar muitas felizes Páscoas para todos nós no futuro.

PS: Sei que esse é um pensamento tipicamente cristão, depositar as esperanças no que há de vir. Mas, se você ainda não percebeu, adoro pensar de maneira cristã, beijos.

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