Fortaleza Lado B

Lado_b_do_yuri_leonardo

Às vezes esqueço que essa cidade tem praia. O Yuri Leonardo, que tirou essa foto, é quem mais me lembra disso.

Nem peguei direito esse tempo, mas ainda lembro que os LPs, especialmente os singles, muitas vezes sofriam de múltipla personalidade: de um lado, os sucessos comerciais que tocavam na novela e nas rádios; do outro, faixas mais experimentais, viajantes, inovadoras. Duas faces do mesmo artista. Hoje, que Fortaleza completa 284 anos, acho que não há melhor metáfora pra expressar exatamente o que me faz amar essa cidade. Só que, ao invés de um lado B apenas, acho que vivemos muito mais nuances. Se duvidar Fortaleza tem até lado Z.

O lado A é o mais visível. Está nos outdoors, que anunciam as mesmas festas caras, com as mesmíssimas atrações – a única coisa que muda é a data. Está também nas Hilux com adesivos de “sou chicleteiro”, nos shopping centers assépticos, nos paredões de som, nas cercas elétricas, nos muros altos e no vestuário-anúncio, onde a marca da roupa chama mais a atenção do que quem a veste. Essa é a Fortaleza que não me atrai – provinciana ainda que viva nas pontes aéreas, homogênea em sua meia dúzia de sobrenomes conhecidos. Para o lado A, só ele existe. O que está fora dessa esfera é, no máximo, motivo pra querer ir embora.

O caos das outras Fortalezas é o que cativa de verdade. Nem tudo é lindo, nada é perfeito, mas é exatamente isso o que atiça os espíritos aventureiros a abraçar a cidade como sua, criticando-a, mas também agindo. É a Fortaleza dos movimentos pela democratização da comunicação, contra a homofobia, em defesa dos direitos humanos, pelos direitos das pessoas com deficiência, de combate à prostituição infantil; a Fortaleza da bicicletada, do transporte coletivo, da preservação do meio ambiente, dos patrimônios históricos, dos passeios no Centro; a Fortaleza dos poetas, dos pintores, dos malabaristas, dos grafiteiros, dos fotógrafos, dos atores, dos contistas, dos zineiros, dos músicos, dos performers, dos boêmios e dos estudantes. É a Fortaleza de quem ousa, de peito aberto.

É nessa Fortaleza que eu gosto de morar, descobrindo e redescobrindo gente que vale a pena a cada passo. Não acho que me enquadro totalmente em nenhum desses grupos, mas o todo me acolhe e me encanta. Essa diversidade faz com que eu me sinta em casa e alimenta a vontade de fazer minha pequena parte pra que a cidade esteja ainda mais bonita aos 285 anos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s