Odes ao domingo

Se pararmos pra pensar, domingo é o único dia em que temos tempo pra fazer exatamente isso: parar pra pensar. Talvez por isso ninguém se sinta completamente bem num domingo. Pra maioria das pessoas, não há trabalho, aulas, obrigações; domingo é só a véspera de tudo isso. As ruas estão vazias e sair de casa é, por si só, um movimento que parece desafiar a Lei da Gravidade.

Domingo é o dia livre por excelência, enfim. E ninguém sabe o que fazer com essa liberdade. Dá remorso simplesmente existir. E esse remorso lembra outros, que enterramos sob os afazeres do dia-a-dia. A vida inteira pode ser revisada numa única tarde de domingo: as oportunidades perdidas, os planos que ninguém sabe se vão dar certo, os afetos, os problemas.

Passei a gostar mais dos domingos quando aceitei seu caráter único. Coincidência ou não, muitas das minhas músicas favoritas falam desse dia, ou melhor, da multiplicidade de dias que podem caber num domingo, dependendo das combinações de sentimentos e circunstâncias.

Sunday Morning Comin’ Down – Johnny Cash

A descrição da vida se desenrolando preguiçosamente na vizinhança – missa, crianças brincando na rua, o cheiro de comida caseira – em contraste com o caos inerente a cada gesto do narrador é a tradução dos domingos mais simples, desesperadores e belos que há, quando a liberdade do dia se manifesta em uma sensibilidade que nos faz perceber o quanto a vida é bonita e irreversível até nas coisas mais bobas. “’Cause there’s something in a Sunday/That makes a body feel alone”

Domingo no Parque – Gilberto Gil e Os Mutantes

Eu adorava ouvir essa música quando era criança. Até hoje tenho um fraco por letras que contam histórias, e as metáforas do Gil nessa canção são lindas, caleidoscópicas. Eu ficava horas imaginando o José, o João e a Juliana… Só muito mais tarde fui perceber que essa música fala de um domingo-catástrofe, de uma tragédia que provavelmente não teria acontecido numa segunda-feira ou num sábado festivo. No redemoinho de sentimentos conflitantes que o domingo traz, o pobre José achou que nunca teria a Juliana, só porque ela resolveu curtir a roda-gigante com o João.

Tell me on a Sunday – Michael Crawford

Uma das músicas mais singelas sobre o fim (anunciado) de um relacionamento. É um pedido final, que transparece o amor que ainda não acabou. Na verdade, Tell me on a Sunday é o nome de um dos musicais menos conhecidos do Andrew Lloyd Webber e trata não de um, mas de vários rompimentos. É a história de uma moça inglesa idealista que chega a Nova York e vive uma série de relacionamentos, que sempre terminam quando ela percebe que está traindo a si mesma e se tornando justamente aquilo que prometera não ser ao ir pros Estados Unidos. Terminar um namoro no domingo, quando revemos o que somos e o que deixamos de ser, faz todo o sentido nesse contexto.

Domingo – Titãs

Só de falar no Programa Sílvio Santos, os Titãs abrasileiram perfeitamente o marasmo do domingo e despertam memórias em qualquer um que já desbravou a selva televisiva desse dia, seja por falta de assunto com os parentes que vieram pro almoço, por tédio ou – será possível? – gosto. O mal-estar em não saber o que fazer com o dia é tanto, que até a segunda-feira é preferível.

Sunday Bloody Sunday – U2

O clássico do U2 relembra o dia 30 de janeiro de 1972, quando 14 manifestantes foram mortos pelo Exército Britânico em Derry, Irlanda do Norte. O episódio, marcado pela truculência contra uma passeata pacífica, fortaleceu as fileiras do Exército Republicano Irlandês (IRA), desembocando em outras explosões de violência ao longo das décadas seguintes. É um marco que continua dolorosamente atual e ganha força, quando soa em um domingo distante quase quarenta anos daquele dia fatídico. Serve como um lembrete de tudo de importante que está acontecendo, enquanto perdemos tempo agigantando problemas insignificantes.

Wort zum Sonntag – Die Toten Hosen

Batizado com uma alusão a programas religiosos da TV alemã (em tradução livre, Wort zum Sonntag pode ser lido como Palavra Dominical), essa música tem mesmo muito de pregação. Ela virou um hino do punk rock, com uma homenagem ao guitarrista Johnny Thunders, do New York Dolls, e fala de como o passado se faz presente, mesmo com o correr do tempo. Um tapa sempre bem-vindo na cara do saudosismo vazio, especialmente no domingo.

Essas são apenas algumas escolhas bem pessoais, tenho consciência que deixei vários clássicos de fora. O fato é que eu também gostaria de ouvir as músicas que significam domingo pra você que me lê.

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Todas trabalhadas nas artes cênicas

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Foto de Bruno Reis. As fotos do espetáculo e no camarim que aparecem ao longo da entrevista são da Lara Vasconcelos.

Deydiane Piaf, Yasmin Shirran, Verônica Valentino e Gisele Almodóvar: quatro travestis com histórias de vida e personalidades tão particulares, que a gente quase esquece que elas são personagens, surgidas da criatividade dos atores Denis Lacerda, Diego Salvador, Jomar Carramanhos e Silvero Pereira, respectivamente. Os quatro contracenam na peça Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis, em cartaz todas as quintas-feiras de maio, às 20h, no SESC Iracema.

Baseado no livro Engenharia Erótica: Travestis no Rio de Janeiro, do psicanalista Hugo Denizart, Engenharia Erótica fecha uma trilogia iniciada por Silvero em 2004, com o esquete Uma Flor de Dama, baseada no conto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, e em entrevistas com travestis e transformistas cearenses. A peça ficou em cartaz durante cinco anos e foi ganhando novos formatos, que desembocaram no Cabaré da Dama, que, além do esquete original, incorpora performances de atores e transformistas.

Em comum, as três peças têm o fato de aproximarem o público de uma realidade desconhecida pela maioria, mostrando o cotidiano das travestis em suas mais diversas facetas, desde a luta contra o preconceito até momentos líricos, como as performances musicais, tão ecléticas que incluem até dublagens de virais como Eu sou Stefhany e clássicos como Nowadays, do musical Chicago.

Algumas horas antes do espetáculo, eu e Bruno Reis conversamos com Silvero, Denis, Diego e Jomar no camarim do SESC Iracema sobre o processo de criação da Engenharia Erótica e algumas das questões abordadas pela peça. A entrevista também está disponível no blog do Bruno, com outro texto de abertura.

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Débora Medeiros – Antes do Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis, vocês trabalharam no monólogo Uma Flor de Dama e depois no Cabaré da Dama, que agregava ao monólogo performances de travestis, interpretados por atores ou não. Qual a relação dessas duas peças anteriores com o Fábrica?
Silvero Pereira – O Flor de Dama começa de uma inquietação minha como artista sobre o universo dos transformistas, dos travestis, sobre o preconceito que eles sofrem, um preconceito social, mas um preconceito artístico também. Artístico no que se refere ao transformismo(ato de interpretar no palco alguém do sexo oposto, seja em uma peça ou em uma boite), que não é reconhecido como artista no meio de trabalho, não só pela sociedade como também pela classe artística, teatral, de bailarinos. Então, essa minha inquietação veio a partir disso.

E aí, o Uma Flor de Dama vem pra falar sobre sociedade, na verdade. Usando o universo dos travestis, usando uma personagem travesti, mas o que ele quer falar mesmo é sobre sociedade, como a gente discrimina as pessoas por elas terem tomado uma opção que não se conformam aos paradigmas vigentes, às regras sociais. E aí, elas ficam à margem, por isso são discriminadas.

No Cabaré da Dama, a gente tenta elevar a qualidade do artista transformista. Então, o Cabaré da Dama, embora tenha o solo Flor de Dama dentro do espetáculo, convida atores pra serem transformistas dentro da peça, mas convida também transformistas que realmente atuam na noite de Fortaleza, assim como convida pessoas que querem experimentar o transformismo. A ideia é fazer com que os transformistas tenham um espaço artístico diferente, que não seja só as boates, e não seja só as boates LGBTTs, mas também os teatros, que eles começassem a ocupar também os teatros e que o público que vai assisti-los pudesse enxergá-los como uma categoria de arte, não só como marginal.

Já o Engenharia Erótica, não: ele vem pra fazer uma passagem pelo universo dos travestis e transformistas, é um espetáculo fragmentado, é um espetáculo de entretenimento. E é um espetáculo de informação também, mas o Engenharia tem uma diferença porque, na verdade, não se aprofunda muito nas questões, ele pretende mostrar um pouco, tornar visível esse o universo. É o que eu chamo de teatro documentário, porque nasceu de tudo o que eu pesquisei ao longo desses oito anos trabalhando com esse universo, eu fui selecionando coisas. E aí, vem um livro muito importante, que é oEngenharia Erótica: Travestis no Rio de Janeiro, que é do psicanalista carioca, Hugo Denizart, que foi muito gentil, cedeu os direitos do livro pra gente trabalhar. E o livro é recortado também, pois é feito apenas de registros de entrevistas. Ele não defende nem discrimina, ele não toma partido; ele não toma nenhuma posição com relação à vida dos travestis, ele simplesmente transcreveu o texto nu e cru. O livro é só uma transcrição das entrevistas. E aí, o espetáculo também queria trabalhar com isso, o espetáculo queria trabalhar com diversas cenas que pudessem mostrar o travesti na rua, o travesti sendo espancado pelo garoto com quem ele vive, o travesti se bombando, o travesti solidário, mas também o travesti agressivo, o travesti transformista…

Denis Lacerda – Enfim, acho que as várias facetas.

Silvero – … a mãe de um travesti. A gente queria dar uma pincelada sobre esse universo, queria que as pessoas assistissem ao espetáculo e saíssem daqui com várias imagens. No caso da transformista, suas várias facetas: a caricata, a drag, o dueto, o romântico, o internacional, o nacional. Enfim, a gente queria mostrar o leque que existe, a aquarela que existe nesse universo. Então, o espetáculo é mais isso: é um passeio pelo universo dos travestis, dos transformistas.

Denis – E até aquela questão de como a sociedade vai mudando, porque, antigamente, você tinha uma rejeição até pela questão da homossexualidade em si, para além de ser ou não travesti. Hoje em dia, vai se quebrando um pouco as barreiras. Não se quebrou tanto, mas é uma coisa que vai com o tempo. Hoje em dia, as pessoas vêm ver o espetáculo e se encantam, porque elas vêem com outros olhos, elas passam a participar daquele universo, né? Dizem: “Ai, o travesti é só isso?” Mas não, quando elas vêem que eles também querem ter família, que eles são amor, que eles não são tão agressivos, que eles só querem viver!

Silvero – É, e a gente também não quer mostrar só o lado marginal. Porque, quando se pensa em travesti, as pessoas vêm pro espetáculo pra verem o que tem de mais podre, o que tem de mais horrível na vida deles. E a gente faz exatamente o oposto no espetáculo, a gente mostra o espetáculo de forma muito luxuosa, com muitos figurinos, com muita luz, com muita maquiagem, quase como uma passarela de moda – inclusive, a concepção do espetáculo é essa, da passarela, até porque a passarela delas é a rua, é a avenida mesmo. Então, a gente usa a concepção do espetáculo nesse sentido, a gente quer mostrar de uma outra forma, não quer mostrar o que é convencional, o que se acha que já se vai ver no espetáculo, a gente quer inverter isso.

Bruno Reis – Puxando um pouco essa história que você falou no começo, que os transformistas não eram reconhecidos até pela classe artística, como artistas mesmo. Dentro desse trabalho, que você já tá há algum tempo – acho que o Denis também…

Denis – Esse ano fez um ano que eu entrei no Cabaré da Dama.

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Bruno – Então, a partir dessa experiência de vocês de entrar um pouquinho nesse mundo, o que vocês perceberam que tem de semelhança entre as duas questões? Porque tem um personagem do documentário que chega a falar de Stanislavski, fala da construção da personagem, porque ele acha que o travesti, o transformista passa também por esse processo. O que vocês acham dessa questão, como atores?

Silvero – Dentro da classe artística teatral, a gente sofreu um preconceito enorme no início do trabalho, quando só tínhamos Bernardo (Bernardo Vitor fez parte do espetáculo Cabaré da Dama, com a personagem), Jomar (Jomar Carramanhos, a Verônica Valentino do Cabaré e do Fábrica) e eu. Éramos só os três. Então, nós três sofremos um preconceito enorme. Inclusive, eu, no início, quando comecei a convidar atores pra fazerem transformistas, todos disseram não, menos o Jomar e o Bernardo, que resolveram fazer o trabalho. Sofremos um preconceito enorme, por sermos atores fazendo transformistas, porque diziam que já tem um estigma de que homem que faz teatro é homossexual e aí quer sempre se libertar na cena. E no nosso trabalho não é essa questão, nó não estamos fazendo travestis porque queremos nos libertar, usar isso como psicodrama. Nós fazemos porque isso nos incomoda, nos incomoda o que fazem com eles, nos incomoda, como artistas e como pessoas, essa discriminação. E aí, dentro desse trabalho, muitos outros atores, vendo a progressão que o trabalho teve, o sucesso que o trabalho teve, resolveram participar também e hoje a gente tem uma equipe de quase 15 pessoas que fazem parte do espetáculo.

Hoje, a gente avalia, artisticamente, da mesma forma(transformistas/travestis e atores), por isso que a gente defende tanto essa questão de que o transformista precisa sair desses guetos e aparecer mais como categoria de arte, inclusive até brigar agora por editais de incentivo à arte pro trabalho do transformista, porque passa pelas mesmas questões, pelos mesmos estudos. Existem transformistas que a gente conhece que têm estudos teóricos sobre o surgimento do transformismo, onde foi que isso surgiu, como é que isso surgiu, de onde vem. E o transformismo já vem do teatro mesmo, quando as mulheres não podiam fazer e eram os homens que tinham de fazer (os papeis femininos).

Já vem dessa raiz do teatro, que se perdeu muito durante a Idade Média e tal. Mas, enfim, a gente começou a perceber essa coisa similar entre ser artista, entre ser ator, entre ser transformista, entre ser bailarino, que também passa anos estudando pra poder subir no palco, subir numa ponta. O travesti, transformista passa meses estudando uma música, estudando a coreografia, elaborando o seu figurino, alguns têm personagens mesmo construídos, como você falou do documentário. Tipo assim, a gente faz até uma brincadeira: se as pessoas conseguem respeitar o clown, que são artistas que fazem esse personagem pelo resto da vida, por que não respeitam um ator que cria o seu transformista, o seu travesti e faz esse personagem também pelo resto da vida?

Denis – E é até algo que eu aprendi na vida, é muito fácil quando você fala: “Ah, ele só sabe fazer isso”. Vem fazer o que eu faço! Sabe? Vem fazer o meu trabalho, porque você pode dizer: “eu posso substituir”, mas não vai conseguir. Porque cada um tem a sua identidade, cada menino que tá no espetáculo tem a sua identidade. E quando o Silvero começou com o Jomar e o Bernardo e sofreu preconceito, eu não tinha nem assistido a peça ainda e tudo, tinha visto só o Silvero(no ainda monólogo Flor de Dama), não tinha visto o Cabaré em si. Eu falei: “Ah, bacana!” Não imaginava que um dia eu iria participar e que um dia eu estaria no Engenharia, no projeto em si. É algo que eu tinha até comentado: eu vi o cabaré e disse “Ai, massa, legal”… Mas, a partir do momento que eu passei a conviver e viver aquilo que os meninos já estavam vivendo, eu comecei a ver com outros olhos, com os olhos de quem acolhe, de quem acredita no processo e acredita no trabalho. Porque eu posso julgar, só porque eles fazem travestis, porque eles se vestem de mulher no espetáculo? Tem tanta gente que faz espetáculo e só faz homem galã, homem galã, homem galã; mulher que só faz doida, doida, doida? E aí, cara? É a característica dele, é a pesquisa dele, é cada um, cada um tem uma identidade, cada grupo, cada projeto tem a sua identidade. Então, tem que fazer aquilo em que acredita. E se fosse algo tão marginalizado, o espetáculo não teria feito tanto sucesso, as pessoas não teriam vindo tantas vezes.

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Débora – Ao contrário da peça Uma Flor de Dama, que era um monólogo, a Engenharia tem quatro personagens principais, cada um com um discurso muito diferente, uma história muito diferente. Como articular esses discursos, criar esses quatro personagens?

Silvero – O Engenharia era pra ser mais um solo meu também. Na verdade, eu teria que fazer todos os personagens e tal. E aí, depois eu fui vendo a concepção: “mas eu quero o espetáculo mais festivo, eu quero o espetáculo maior, grandioso”. Porque a Flor de Dama é um solo, mas ele é muito pequenininho. Eu não sei se vocês viram a Dama sozinha, fora do Cabaré: ela só precisa de uma mesa, uma cadeira, e ali acontece a coisa. Eu queria uma coisa maior, mais espetacular. Como eu tava trabalhando com os meninos no Cabaré, já tava trabalhando com eles há quase um ano, eles já tinham personagens prontos, criados, a Verônica, a Deydiane, a Yasmin e a Giselle, que sou eu. Então, eu falei: “Porra, já tenho personagens pré-criados!” E aí, era só pegar esses personagens e colocar em outras situações que não sejam só fazer show, mas colocá-las se prostituindo, sendo espancadas, querendo se bombar, conversando com o público sobre suas dores ou então brincando com o público, falando sobre sua vida, enfim. Eu disse: “Já que eu tenho esse grupo, já tenho essas pessoas formadas comigo, que acreditam nisso que eu comecei a acreditar em 2004, nada mais justo do que começar a trabalhar com elas e começar a construir algo com elas”. E aí, foi super bacana porque elas aceitaram na boa o trabalho e basicamente foi por causa disso: porque já estávamos trabalhando juntos, porque eu vi que eram pessoas que acreditavam no trabalho e que eu acho que só iriam engrandecer, na verdade, que poderiam dar uma dinamicidade muito maior pro espetáculo do que se fosse só um ator. Além disso, o espetáculo ainda tá em processo…

Denis – É, desde a época em que a gente estreou, que teve a pré-estréia (o espetáculo teve duas apresentações ainda em abril, no Theatro José de Alencar), e agora, que a gente tá em temporada, a cada apresentação, a gente volta pra sala de ensaio, a gente debate e vê: “Não, fica isso, não fica…”. Porque, a partir do momento que a gente tem a receptividade do público, que a gente percebe a energia, a gente vê o que fica e o que não fica. Porque é um processo teatral, que isso vai acontecendo em qualquer outro espetáculo.

Em relação especificamente ao Engenharia, quando o Silvero me chamou, ele falou: “Ó, Denis, tu vai fazer isso, é esse teu personagem…”. Ele deu a base, mas, em cima da base, a gente foi criando, foi construindo, foi vendo, lendo textos. Porque, do bebezinho, criou-se um homem. Então, desse homem, ainda vão se criar outras coisas em cima, as características. Por exemplo, a Deydiane faz a caricata, a Giselle já é um pouco caricata também, mas é mais popular, já a Verônica é bem classuda, a Yasmin é uma coisa mais teen… A gente diz que é a tailandesa (risos). Porque cada um tem a sua característica. Quando as pessoas olham, elas vêem que não é só aquele show que talvez elas estejam acostumadas a ver nas apresentações, com aquelas mesmas músicas, com aquele mesmo jeito. Não, tem um trabalho diferente nisso. E com esse trabalho, a gente quer também que falar pros transformistas, que eles participem, vejam que eles podem ir além, sabe? A gente fala deles, da vida deles.

Bruno – A Yasmin já se apresentava no Cabaré?

Diego Salvador – A Yasmin participou de um campeonato que teve do Cabaré da Dama, um concurso.

Jomar – A gente fez um novos talentos (risos).

Diego – Eu participei do segundo concurso que teve, no Cabaré. E eu acabei ganhando e ficando, conquistando a confiança do meu trabalho para com o Silvero. E eu acabei tendo a pesquisa sobre como escolher esse nome e acabei chegando no Yasmin Shirran. Denis – E também é aquela coisa assim: a Deydiane saiu do primeiro concurso do Cabaré da Dama. Foi uma coisa muito inusitada, o Silvero falou assim: “Denis, tu devia participar, tu devia fazer um show no Cabaré da Dama”. Mas eu não sabia que tinha um concurso (risos). E no dia eu não conseguia falar com ele, pra dizer: “Não, Silvero, eu vou”. Liguei pro Jomar, falei: “Jomar, eu vou fazer.” Não tinha peruca, não tinha nada. Tinha uma que um amigo meu me emprestou, aí eu fui criando umas coisas… Então, eu ganhei o primeiro concurso e depois foi a Yasmin e teve os outros concursos. Foi aí que eu entrei no Cabaré. Porque o Cabaré é mais aquela coisa: como eu trabalho em outros espetáculos, o Cabaré a gente se reveza nos shows de abertura. O Engenharia não, ele é um espetáculo que a gente pretende um dia viajar todo mundo, sabe? Porque tem muita gente que olha o espetáculo e fala: “Não é pra tá só aqui”. Eu fico muito apaixonado e, ao mesmo tempo, muito nervoso, meus cambitinhos começam a tremer (risos), porque é dormir pensando no espetáculo, acordar pensando no espetáculo.

Diego – E pra quem faz se torna realmente muito mágico, sabe? Eu venho pensando que não é só uma autorealização, é mais que isso. Vem uma energia que você às vezes nem explica quando você tá fazendo esse espetáculo. E isso eu pude perceber quando eu participei do concurso que teve, eu pude perceber que era uma coisa tão mágica, que eu acho que fez com que eu conquistasse e ficasse nesse trabalho, no Cabaré e agora no Engenharia.

Denis – O Silvero já tinha uma história de pesquisa e a gente também teve a nossa. O Engenharia a gente construiu até agora nesse formato, que vocês viram já. Pode chegar daqui há um ano e não ser o mesmo formato. Hoje já não é. O que você viu na quinta-feira, já não tem nada a ver com o que você vai ver hoje, sabe? E talvez quinta-feira que vem também já não seja. Ele vai ser sempre um processo de criação.

Diego – Até porque é um trabalho que permite isso, que realmente permite essas modificações, sabe?

Silvero – Eu tenho um interesse enorme de que a cada semana o público veja um espetáculo diferente. Que o público dessa quinta-feira, quando entrar em contato com o público da próxima, entre em desacordo do que aconteceu nas duas apresentações. ‘’Ah, eu vi essa cena’’, ‘’mas hoje essa cena não tinha’’. O objetivo é esse mesmo. Como é um espetáculo fragmentado e como todo o espetáculo é feito em cima de fatos reais, a gente tem uma possibilidade enorme de ficar mexendo, de ficar injetando e tirando coisas.

Bruno – Eu queria só tirar uma dúvida. Fico até com vergonha de perguntar, mas acho até legal que exista essa possível dúvida no público. O Silvero eu sei que sim, mas vocês todos já trabalhavam com teatro?

Denis – Já, eu faço teatro ha 8 anos.

Bruno – O Diego, então, que é o mais novo?

Silvero – É, faz um ano que ele tá no teatro, e é o primeiro espetáculo dele, quer dizer, o segundo (o primeiro foi o Cabaré).

Denis – E o Engenharia se torna pra mim mais ousado porque, ao mesmo tempo em que eu tenho a oportunidade de fazer a caricata (Deydiane, sua personagem), eu tenho a possibilidade de fazer uma quebra, de mostrar uma outra situação. É uma linha totalmente diferente do q eu já venho fazendo nos meus outros trabalhos. Eu trabalho mais com espetáculos de comédia, infantil, alguns adultos… E eu nunca fiz um solo. Nos meus oito anos de teatro, eu nunca fiz um solo. Eu tinha muito medo de fazer. Quando veio o Engenharia, foi um desafio de mostrar um solo, de um personagem que eu já tinha criado, de poder amadurecer, de fazer uma pesquisa mais intensa. É algo que vai… que vai mexendo aqui. Às vezes eu acordo e penso: eu acho que eles fazem o que eles querem, o que eles gostam.

Diego – Eu adoro minha vida! (Risos gerais).

Denis – Eu acordei assim… Depois da estréia, eu acordava às vezes e já começava a passar o texto. Hoje, mesmo, quando eu tava vindo, eu tava na topic falando o texto. E aí tinha um meninozinho olhando pra mim, depois a mãe dele também virou e aí eu me toquei que ele tava olhando pra mim! Aloca! Dei nem confiança.

Bruno – Diego, você disse que tá no teatro há pouco tempo, como é que é a tua história?

Diego – Com relação ao teatro, eu tô nesse processo, vai fazer acho que uns dois… uns três anos. Eu já tinha um conhecimento, mas nada tão profissional, como esse trabalho agora. E pude perceber a evolução, sabe? De trabalhar com o Silvero, de trabalhar com o Denis, de trabalhar com o Jomar e de trabalhar com outros atores que estão nesse espetáculo. Então é o tempo todo assim: informações por cima de informações, e você têm que colher, você tem que realmente estar pesquisando, estar trabalhando, pra que você não se enferruje.

Denis – E outra coisa, o Silvero até tava falando com a gente sobre isso recentemente. A gente conversava sobre homossexuais bem sucedidos. E tem uma amiga nossa, que eu até já trabalhei com ela que é a Layla sah e a Alicia Pietá (interpretados por Michel Kaiã e Bernardo Vitor, respectivamente) e eles vivem hoje disso, do trabalho do transformismo deles, que começou no teatro. E atuam muito bem porque eles tiveram uma base, porque o teatro deu uma base pra eles, de poder criar, e até a desenvoltura de comandar um show, de poder lidar com o público. O teatro também dá uma base muito disso pra muitos transformistas.

Silvero – E o espetáculo tem quebrado muitas barreiras. A gente faz o espetáculo pensando em uma técnica teatral, nenhum dos quatro é transformista, nenhum dos quatro é travesti. São todos atores e, de repente, a gente começa a ter convites de boites gays pra fazer shows, pra assumir final de semana nessas casas. E isso a gente acha muito bacana, porque acaba provando pra gente o reconhecimento da classe, o quanto elas se sentem bem representadas, o quanto elas nos consideram dignas no que estamos fazendo.

Bruno – Eu queria pedir que cada um falasse um pouco da história do nome do seu personagem, já que vocês mesmos que criaram. Imagino que seja um processo bem interessante, esse de se dar o próprio nome.

Silvero – A Gisele Almodóvar, no meu caso… A gente já tava com o Flor de Dama em cartaz, mas a personagem não tinha nome. No texto a gente chamava ela mesmo só de Dama. Aí eu tava falando com um amigo, que também é transformista, e ele me fez, do nada, duas perguntas: vem cá, me diz o que é que você gosta de fazer, duas coisas que você gosta muito. ‘’Ah, eu acho a Giselle linda e adoro os filmes Almodóvar’’. ‘’Uhm, mas me diz uma outra coisa!’’. ‘’Ah, eu gosto muito de perfume, o Dolce & Gabanna, vai’’. Aí ele disse: pois, então, pronto, já é teu nome: Gisele Dolce Almodóvar. Aí eu, ‘’é, até que eu gostei ’’ ‘Bom, você usa o nome, GIselle Almodóvar, mas quando pedirem o nome completo você dizer Gisele Dolce Almodóvar’’. E virou uma brincadeira bem divertida no cabaré, e foi muito bacana.

Denis – A Deydiane foi assim: eu tava assistindo aquela novela com um amigo,A favorita, e tinha aquela tal de Dedina, que apanhava do marido, e esse amigo adorava botar apelido em todo mundo. Aí ele: ei, Dedina! Detesto esse nome, não vem com isso não! Aí na semana seguinte, a gente foi assistir o filme da Piaf (Piaf!, de Fulano de tal). Eu queria tanto ver, a gente foi. Depois ele veio, ‘’ei, Deydiane Piaf’’. Eu: vá pra merda, não me chame de Deydiane Piaf não! Eu não gostava do nome, ‘’não, sai pra lá, que história é essa’’. E passou. Aí, quando o Silvero chamou pra fazer o Cabaré, eu pensei, que nome eu vou botar, pelo amor de Deus? Aí veio bem na hora, Dediane Piaf! E o Silvero perguntou, ‘’o que tem a ver’’? Deydiane porque eu acho que é um nome popular, que você consegue escutar uma mãe dizendo ‘’ Deydiane, menina, vem aqui!’’ . Porque eu vejo também um nome muito divertido. E Piaf pelo fato da Piaf ser uma diva, porque tem aquelas caricatas que tendem para um estilo quase Raimundinha, botam muita coisa, exageram, mas a Deydiane não, ela quer ser uma menina, uma Barbie, mas quando ela precisa, ela faz uma macacada. Aí ficou, Deydiane Piaf, um mito é um mito. O hino do amor, nhaê?

Silvero – Porque todas elas tem um bordão, na verdade.

Diego – A Yasmin Shirran veio de uma pesquisa, de um filme que eu assisti,Memórias de uma Gueixa, de onde eu tirei o Yasmin. E o Shirran foi de uma outra pesquisa, também desse universo das gueixas, dessa vez de um documentário que eu vi.

Denis – Ela tava assistindo era Dragon Ball, né? Risos.

Jomar – O meu foi muito engraçado porque, assim, quando a gente começou no Cabaré, eu lembro que eu nunca tinha feito nenhum trabalho de dublagem e aí já foi difícil escolher que música fazer. E um dia eu tava acabando de sair do meu francês e tal, e resolvi fazer algo da Piaf só mesmo pelo comodismo de saber falar aquilo que eu ia dublar. Aí, eu escolhi uma música dela, entrei sem peruca, só com um turbante… A primeira imagem da Verônica era muito anos 1920, me remetia a uma certa imagem de um cabaré anos 1920. Eu sempre gostei do nome Valentino, que me remete a esse tipo de cabaré, a esses bordeis daquele tempo. E Verônica porque, se eu tenho o Valentino, eu queria um nome de uma mulher brasileira, de uma mulher forte e tal e aí, eu peguei o nome da minha mãe! Risos. Ela, inclusive, é evangélica e tudo mais.

Bruno – E o que ela achou?

Jomar – Ela adorou! Risos. Aos poucos, ela foi se acostumando… Mas, enfim, eu disse: Verônica é um nome forte, é brasileiro e é o nome da minha mãe.

Denis – A gente tava brincando uma vez: “Vamos colocar o nome das nossas mães?” Aí eu: Marilena Piaf! Não! Risos gerais.

Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis está em cartaz todas as quintas-feiras de maio, às 20h, no SESC Iracema (Rua Boris, 90. Próximo ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Mais informações: http://www.fabricadetravestis.com.br

Kerouac e o que vale a pena

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Jack Kerouac e Neal Cassidy, Sal Paradise e Dean Moriarty. (Divulgação)

Existem momentos perfeitos pra gente ouvir uma banda, ver um filme, acompanhar um seriado, ler um livro. É como se nossas vidas entrassem em sincronia com aquela obra de arte específica e ela pudesse ser compreendida de um modo único, impossível de replicar alguns anos atrás ou adiante. A vida se entrelaça à criação.

Há uma semana, eu vasculhava o armário de livros dos meus pais, à procura de bibliografia para o mestrado: Durkheim, Weber, os clássicos que eles viram na graduação e já devem ter esquecido – pragmatismo cotidiano comendo as teorias da juventude em suas cabeças. Gosto de chafurdar na poeira desse armário, ver o que eles liam quando tinham a minha idade, no que somos ou éramos parecidos. Entre um Vargas Llosa que já li e um manual intitulado A auto-estima do seu filho, Jack Kerouac acenou pra mim, com seu grande clássico On the Road, numa edição de 1984, assinada possessivamente pelo meu pai e situada no espaço e no tempo pelos rabiscos “Natal, 30/04/84”. Meus pais se casaram no final daquele ano e vieram morar em outra cidade. Não deixava de ser um chamado da estrada.

Sempre tive uma vaga curiosidade pra ler esse livro, mas nunca foi o suficiente pra comprá-lo, ao esbarrar com ele em alguma livraria. Algo naquela tarde modorrenta de terça-feira me fez esquecer as leituras acadêmicas e mergulhar finalmente nas viagens do maior dos beatniks. E o momento não poderia ser melhor. On the Road ecoa meu presente e meu futuro como nenhuma outra obra que caiu nas minhas mãos este ano. Cada linha repercute conversas, reflexões, sonhos, planos. Como quando Jack coloca em palavras meus próximos anos, os próximos anos de tantas gerações de jovens nessa cidade: “(…) pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal”. Impossível não fechar os olhos e adivinhar as vidas dos mais queridos, seus planos virando realidade aqui ou em outro lugar e os reencontros ocasionais, migratórios.

Num ano em que crescer significa emprego, responsabilidades de profissional, projetos independentes e escolhas de prioridades, On the Road parece dizer que a vida não acabou, essas são novas aventuras e um mundo de possibilidades e liberdade está só começando. No livro, viajar é apenas uma etapa extremamente enriquecedora do ciclo de cansaço e renovação que é cair na estrada e esquecer que se tem uma casa pra onde voltar, até que o caminho de volta se torne a direção mais natural outra vez.

Está tudo lá: o salto no escuro que é se lançar rumo a uma cidade desconhecida, a familiaridade que vem com o contato com as pessoas que moram ali, a saturação que leva a partir e começar o ciclo todo de novo. Jack também estabelece o equilíbrio entre viajar sozinho, absorvendo tudo e todos que encontramos nos acasos da estrada, e cumprir a jornada na companhia de um velho amigo. Ver Sal ver o mundo pelos olhos do seu amigo desvairado Dean é uma das sacadas mais brilhantes do livro. Fico pensando nas poucas pessoas que poderiam ser “meus Deans”, tenho bem fixados os rostos desse punhado de malucos adoráveis, que achariam perfeitamente lógico esse tipo de aventura, encarada com desconfiança por 90% dos que nos cercam. Os lugares que poderíamos descobrir juntos, as histórias que teríamos pra contar…

A solidão de um vagabundo nas highways americanas do fim dos anos 1940 e começo dos 1950 parece falar de um tempo de inocência inimaginável nos EUA das séries de serial killers e dos horrores impronunciáveis. Jack capturou o espírito de sua época e, como certas passagens do livro explicitam, tinha plena consciência disso. Incríveis são as descrições dos shows de jazz em inferninhos do oeste, em que a música pulsa nas letras impressas e soa tão forte na imaginação que quase se pode ouvi-la. Diante de notas tão transcendentais ou das paisagens sublimes vistas de relance, tudo ganha outra dimensão. Diante do que se pode viver, pra que perder tempo, se preocupando com mesquinharias? É o que Dean parece resumir, descrevendo para Sal um grupo com quem eles pegaram carona:

Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos e puramente angustiados e angustiantes, suas mentes jamais descansam, não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim.

Amigos, a vida é tão mais que isso. Caiam nas estradas dos seus corações.

Auf Deutsch

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Nächste Station: Westener Dorfstrasse, wo mein zweites Heim liegt. (Débora Medeiros)

Ich weiss, nicht so viele Leute werden dieser Text verstehen, aber es war unmöglich, die gleiche Wörter auf eine andere Sprache zu schreiben.

Jede Sprache ist, für mich, eizigartig. Wenn ich auf Englisch schreibe, alles klingt so entfernt, als ob die Erfahrungen und Gefühle nicht zu mir gehörten (das ist aber etwa therapeutisch). Auf Portugiesisch ist es das Gegenteil: alles klignt zu persönlich, sogar wenn es nicht über mich ist.

Portugiesisch ist meine Muttersprache und die Muttersprache meiner Leser. Deshalb verstehen wir uns so gut – zu gut, vielleicht. Wenn ich ein Text auf Portugiesisch veröffentliche, fühle ich mich fast nackt – jeder kann zwischen den Zeilen lesen, denke ich. Na klar, es lohnt sich: manchmal finde ich andere Leute, die genau wie ich fühlen, und entdecke ich neue Freunde.

Englisch ist die Sprache meiner Jugend. Durch das Lernen von Englisch habe ich eine neue, grosse Welt erfahren. Damals hatte das Internet keine Grenze: ich konnte verschiedene Kenntnisse bekommen und Leute auf der ganzen Welt kennenlernen. Ich fühlte mich, als ob ich ein Teil einer weltweiten Gesellschaft wäre. Und die einzige gemeinsam wir alle hatten war die englische Sprache.

Deutsch ist aber Freiheit. Es ist eine ehrliche Sprache, weil es aus eine ehrliche Kultur kommt. Deswegen kann ich auch ehrlich sein und über meine Gedanken und Gefühle schreiben – ohne Druck, ohne Angst.

Wahrscheinlich hat dieser Text viele, viele Fehler. Ich lerne noch. Die wichtigste ist, dass ich noch schreiben kann. Ohne Übung, jeder Tag verliere ich mein Deutsch ein bisschen mehr: ich vergesse Wörter, die ich schon kenne, und auch die kleine Erinnerungen diese Wörter tragen.

Jedes deutsche Wort erinnernt mich an meine Zeit in Deutschland – und an Schnee, fremde Strassen, einfache Freundschaften, Entdeckungen, Zuverlässigkeit, Geschichte und Unabhängigkeit. Entweder ich künftig zurück nach Deutschland gehe oder nicht, immer wenn ich auf Deutsch schreibe, werde ich diese Gefühle wieder erleben. Für ein paar Minuten bin ich noch einmal in Düsseldorf, die Stadt, die mein anderes Leben hält, das zweite Heim meiner Jugend. Das ist ein Teil von mir, das ich nie verlieren will