Entrevista: janela da alma

Na época em que fiz o vestibular, eu não sabia que ser jornalista iria me proporcionar a realização de um desejo antigo: conhecer um pouco mais a fundo parte da multitude de vidas que me cerca. Bem mais que a busca pelas aspas ideais para inserir na matéria da vez, toda entrevista tem o potencial de revelar um ser humano, com sonhos, mágoas, histórias e opiniões. Hoje, tenho consciência de que é isso o que mais me atrai no fazer jornalístico.

A sensação de conquistar a confiança de um entrevistado a ponto de ele olhar nos seus olhos e relatar vivências que o marcaram ou confessar sentimentos que normalmente se escondem da superficialidade dos convívios sociais é simplesmente única. Não é só a adrenalina da declaração exclusiva ou a satisfação por estar fazendo um bom trabalho. É também um respeito profundo por aquele interlocutor, que lhe confia tantas coisas espontaneamente.

Nossa rotina é marcada pelos papéis sociais. Muitas vezes, somos reduzidos ao ofício que desempenhamos. É fácil esquecer que há uma vida em cada professor, advogado, catador de lixo, militante, pessoa com deficiência, cantor, milionário, policial, funcionário público, preso, escritor, estudante, trocador de ônibus. Acredito que somos aquilo que vivemos. E é incrível como uma entrevista pode, em meia hora, fazer emergir uma história de vida inteira.

Muitos teóricos já escreveram sobre o caráter dúbio da entrevista: não é um interrogatório, nem uma conversa entre amigos. Pra mim, é um contrato de respeito mútuo. É meu papel perguntar da maneira mais clara e completa possível e é papel do entrevistado buscar responder honestamente, mesmo ao se recusar a responder. 

Seria ingênuo achar que toda entrevista acontece em condições ideais. Seres humanos são imperfeitos e complicados. Existe o medo do repórter de ofender com uma pergunta ou de ferir a própria vaidade ao demonstrar desconhecimento. Existe o medo do entrevistado de trazer à luz certos fatos e experiências. Afinal, falar para outra pessoa sobre as próprias impressões dá a elas maior concretude – além disso, nunca se sabe a repercussão que uma confissão publicada pode ter. 

Por isso, acho que não existe entrevista definitiva, cada encontro desse tipo é como uma reação química muito complexa, envolve inúmeros elementos, sempre em dosagens distintas.

Parte do meu fascínio por entrevistas vem daí: compartilhar um momento único na vida de alguém que, de outra forma, talvez não tivesse cruzado o meu caminho. Suas histórias viram parte da minha história. Elas persistem para além de nós, nos olhos de todos os que nos lêem, assistem ou ouvem.
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