A vida é tão maior que isso

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80 (Yuri Leonardo)

Dizem de alguns povos que são como formigas, diligentes e submissos à coletividade. Pensando assim, Fortaleza é como um formigueiro que acabou de ser pisado: cada formiga corre, sozinha e desnorteada, na tentativa de deixar o caos para trás.

Ônibus apinhados de gente, ruas atulhadas de carros. Não existe contra-fluxo: todas as horas são horas do rush.  Nos corpos, sempre em rota de colisão, a sensação renitente de que o inferno são os outros. Na verdade, o inferno está em cada um.

São pobres diabos que, imersos no próprio egoísmo, viram legião, possuindo a cidade que os abriga, em uma confusão de vontades individuais inconciliáveis. O que importa é prevalecer sobre o outro, mas ninguém de fato prevalece. E todos amaldiçoam a cidade, sonham com o dia em que fugirão dela. É mais cômodo que tentar transformá-la.

Fortaleza é um lugar hostil. O sol é escorchante, onipresente. Cega os olhos, torra a pele. À beira-mar, espigões privatizam o vento que poderia aliviar o dia-a-dia abrasador. E, quando a chuva vem, não lava as ruas nem as almas. Inunda-as.

Mas é só olhar pro céu para esquecer tudo isso. Mesmo com a vista quase sempre posta nas pedras de calçamento – para não tropeçar –, ainda encontro alívio em ver de relance a vastidão azul que paira imperturbável sobre todos nós, como a escancarar a pequenez de nossas aflições. Nos dias cada vez mais próximos do meu futuro, não haverá sempre um céu assim.
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