Impressões de um Berlinale

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Em fevereiro, o Theater am Potsdamer Platz vira Berlinale Palast. (Débora Medeiros)

Não sou nenhuma cinéfila, mas, quase sem me dar conta, assisti dez filmes em uma semana de Berlinale. Cada dia no 62o Festival Internacional do Filme de Berlim era sinônimo de voltar pra casa com novas histórias na cabeça, ruminando outras realidades, relatos de vida e ideias. 

E foi um acontecimento típico de Berlim: misturado ao cotidiano – não tive a sensação de que a cidade parou por causa do Berlinale -, mas reservando um butim de experiências para quem ousa parar os afazeres e comprar um ingresso. 

Pretendo repetir a dose em 2013, só que, dessa vez, desde o primeiro dia. Este ano, perdi os três primeiros dias do festival, achando que não iria conseguir ingresso. Bobagem: chegando algumas horas mais cedo, dá pra conseguir entrada pra qualquer filme, mesmo os da competição pelo Urso de Ouro. E, comprando no mesmo dia de exibição, estudante paga meia. 

Aqui vão algumas impressões (não chamaria de resenhas) dos filmes que pude ver nesse Berlinale, na ordem em que os assisti.

Ai Weiwei: Never Sorry

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(Alison Klayman)

Um dos artistas mais escancaradamente críticos ao governo chinês, Ai Weiwei expõe a própria vida neste documentário com a mesma transparência que exige do regime: mostra sem medo o rosto de seu único filho, deixa-se filmar numa conversa cheia de carinho e tensões com a mãe e revela as táticas quase de guerrilha de um dos seus projetos mais interessantes, a investigação das mortes de estudantes vítimas de um terremoto em Sichuan em 2008 (o governo se recusa a tornar público o número oficial de mortos).

De acordo com a diretora Alison Klayman, essa transparência também na esfera privada é uma estratégia de defesa por si só: “Ele se esconde à plena vista,” explicou ela, em uma conversa com o público daquela primeira exibição internacional do documentário, no dia 12 de fevereiro. E, ainda de acordo com Klayman, essa é uma estratégia que parece estar se difundindo. Muitos dos jovens que trabalham com o artista têm adotado o mesmo ideal de transparência, tuitando, fotografando, filmando – registrando, enfim, sua resistência. São os “discípulos de Ai Weiwei”, como ela os chama.

Como essa disseminação de uma cultura de transparência na China afetará o futuro do país? Essa foi a pergunta que não saiu da minha cabeça depois da exibição, mesmo após ser interpelada por uma jovem chinesa claramente filiada ao Partido Comunista, que queria porque queria uma opinião negativa sobre o filme. Depois de diplomaticamente mudar o rumo da conversa para o Brasil, escapuli pra ver o segundo filme da noite.

Cesare deve morire

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(Umberto Montiroli)

O docudrama dos irmãos Taviani definitivamente mereceu o Urso de Ouro. A ideia de fazer o público acompanhar um grupo de detentos nos ensaios para uma montagem de Júlio César, de Shakespeare, na cadeia é uma sacada em prol do humanismo e da reabilitação. 

Aqueles homens, condenados muitas vezes à prisão perpétua, parecem, nos ensaios, meninos brincando no quintal de casa, por não poder jogar na rua: revisam o texto em suas celas, perdem a noção do tempo refazendo cenas durante o banho de sol, acompanham ansiosos a reforma do auditório do presídio.

E a escolha justamente de uma peça que fala sobre liberdade e soberania reforça ainda mais o contraste. Uma das cenas que mais me marcou foi o discurso de Brutus (Salvatore Striano), no meio do pátio da prisão, bradando pela liberdade de Roma, diante de uma audiência que o assistia atrás das grades.

Olhe pra mim de novo

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(Divulgação)

Sylvio Luccio tem uma história incrível, tanto que virou o único personagem de um documentário cuja proposta inicial era acompanhar vários protagonistas. Ao mesmo tempo, o que se vê na tela é mais um cara que quer ter uma vida normal – casado, pensando em ter filhos – que talvez só tenha vivenciado tantas coisas por ser um transsexual masculino. “Eu não fui só excluído pela minha família, pela escola, pelos amigos, ou pelo mundo masculino e feminino. Fui excluído do meu direito de ser cidadão brasileiro e ser humano”, declarou ele, em uma conversa com o público após a exibição do filme.

Olhe pra mim de novo é um retrato do esforço quase exaustivo que muitos LGBTs empreendem diariamente na busca por uma vida normal, que lhes é negada pelo preconceito contra sua orientação – ou contra sua identidade – sexual. Enquanto tenta realizar o sonho do primeiro filho, Sylvio conduz o público do documentário pelos sertões nordestinos, mostrando histórias de outras pessoas que sofrem por ser diferentes. E esse trajeto, com as cores quentes dos cenários familiares da minha infância, despertou uma nostalgia danada.

Sylvio fala abertamente dos sentimentos e da sexualidade que vivencia como transsexual, com frases às vezes
até cafajestes, que provocavam riso – às vezes cúmplice, às vezes desconcertado – na platéia. No Festival de Gramado de 2011, tanta franqueza pareceu ofender algumas pessoas. Não será essa também uma forma de preconceito? Em Berlim, o conservadorismo brasileiro nessa área causou perguntas espantadas.

Xingu

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Parte da equipe de Xingu em conversa com o público, no dia 15 de fevereiro. (Débora Medeiros)

Impossível não associar a história dos irmãos Villas-Bôas, na tela, à polêmica em torno da usina hidrelétrica de Belo Monte, nos jornais. Ao contar a história da criação do Parque Indígena do Xingu, o diretor Cao Hamburger parece querer lembrar o tamanho da conquista representada por essa reserva indígena, ao mesmo tempo em que retrata a gênese de muitos dos erros que desaguaram em Belo Monte (não é à toa que o projeto vem desde a ditadura militar).

Depois da exibição, o diretor respondeu algumas perguntas do público, juntamente com os atores Caio Blat e João Miguel (Leonardo e Cláudio Villas-Bôas, respectivamente) e de alguns dos produtores do filme. Ao ser questionado sobre Belo Monte, não usou meias palavras: “Nessa cena em que o presidente estava inaugurando a Transamazônica, é a mesma cidade onde estão construindo Belo Monte (Altamira). Naquela época, tínhamos uma ditadura, mas agora temos um governo democrático e estamos cometendo o mesmo erro. Estamos perdendo uma oportunidade de construir um novo paradima de progresso, respeitando o meio ambiente,” disse Cao.

Sophie’s Choice

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(Divulgação)

A homenageada este ano no Berlinale foi Meryl Streep e muitos filmes que marcaram a sua carreira estavam em cartaz. Aproveitei para ver Sophie’s Choice, baseado no livro do americano William Styron. Confesso que foi estranho, até um pouco pertubador, ver um filme com menções diretas às barbaridades do nazismo em meio a um público predominantemente alemão.

Os diálogos em alemão nos campos de concentração, nos flashbacks de Sophie, eram de uma crueza cortante até para os meus ouvidos de estrangeira que aprendeu o idioma muito recentemente. Inevitável não se perguntar como os próprios alemães ao meu redor se sentiram quando Sophie, em sua narrativa, se referia não aos nazistas isoladamente, mas “aos alemães”, enquanto relembrava as crueldades da época.

Terá sido uma escolha deliberada dos curadores do festival?

Words of Witness

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(Divulgação)

O documentário acompanha Heba Afify, de 22 anos, que começou a trabalhar como jornalista apenas três meses antes da revolução que derrubou o ditador Husni Mubarak no Egito. Além da sensação incrível de ver alguém da minha geração fazendo tanta diferença, o filme é interessante por mostrar aquilo que não chegou com tanta força às manchetes dos jornais ocidentais: os acontecimentos pós-revolucionários.

Enquanto Heba apura suas pautas, acompanhamos os conflitos entre cristãos e muçulmanos (que haviam lutado unidos durante a revolução), o papel ambíguo do exército, a emoção de muitos egípcios ao votar pela primeira vez na vida, o uso das redes sociais, a permanência de manifestantes na Praça Tahrir e sua retirada, forçada pelo exército. O próprio cotidiano de Heba diz muito sobre a realidade do país: membro da classe média egípcia, ela discute com a mãe (que é tão moderninha como muitas mães brasileiras e tem até perfil no Facebook) sobre os riscos de se envolver em coberturas políticas, se sente em casa escrevendo em inglês e hoje colabora até com o New York Times

Entre os momentos mais marcantes do filme, estão as cenas em que Heba entrevista anônimos em meio à multidão. Todos correm para ser ouvidos, querem contar suas histórias, apresentar seus argumentos, tirar uma foto. É como se, com a possibilidade da democracia, as pessoas percebessem também o papel essencial da imprensa para que essa possibilidade se concretize.

In the shadow of a man

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(Hanan Abdalla)

Exibido em dobradinha com Words of Witness, este documentário enfoca os direitos da mulher na sociedade egípcia e retrata como ainda há muitas revoluções a serem desencadeadas na esfera privada – talvez até mais difícil de ser transformada que a pública. 

Wafaa, Suzanne, Shahinda e Badreya: quatro mulheres de realidades bem diferentes contam suas histórias, repletas de sonhos, frustrações, opiniões decididas, afeto, memórias. Por não se concentrar somente na capital do país e explorar regiões mais pobres, o documentário apresenta uma perspectiva mais ampla do Egito pós-Mubarak que Words of Witness.

Uma observação interessante: essa foi a primeira exibição dos dois documentários no Berlinale e, na fila, os últimos ingressos eram disputados quase a tapa. Isso é um exemplo do que eu já tinha percebido em outras sessões – as pessoas querem ver, na telona, histórias reais do mundo em que
habitam, quem sabe até fazer do cinema uma ferramenta para entender melhor as diversas transformações que, de uma forma ou de outra, puderam acompanhar no noticiário ao longo de 2011.

A seleção do Berlinale realmente tocou muito nesse aspecto. Além dos dois filmes egípcios, havia documentários sobre o extremismo de direita que ressurgiu na Alemanha (Blut muss fließen), sobre a luta contra o projeto de lei anti-gay na Uganda (Call me Kuchu), sobre os protestos na Espanha (Indignados) e diversos filmes sobre a Primavera Árabe (por exemplo, The Reluctant Revolutionary). Queria ter podido ver todos, mas quem sabe tenho mais sorte (e tempo) em 2013.

Tabu

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(Divulgação)

A narração do filme, feita pelo próprio diretor Miguel Gomes, dá um tom de realismo fantástico à história, apesar desta não possuir aspectos explicitamente surreais. As grandes sacadas de Tabu são justamente os pequenos detalhes da narrativa, como a maneira cronológica como a história é contada (na primeira parte, em dias; na segunda parte, em meses, por razões quase fisiológicas).

Em Paraíso, segunda das duas partes que compõem o filme, não há um único diálogo, mas muitas músicas e ruídos do ambiente, que parecem ficar ainda mais altos na ausência de vozes. O recurso assinala o caráter de lembrança do que está sendo contado, como se estivéssemos nós mesmos dentro da mente de alguém que recorda acontecimentos de décadas atrás: ninguém se lembra exatamente de todas as palavras ditas, mas as canções e as imagens geralmente permanecem.

Não é coincidência que Miguel Gomes, que declarou ter pretendido fazer um filme tradicional, tenha recibido justamente o prêmio de inovação Alfred Bauer no Berlinale.

Extremely Loud and Incredibly Close

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(Divulgação)

O livro é melhor. Mas constato isso não com aquele gostinho pretencioso e meio masoquista que a maioria dos fãs parece sentir quando vêem seus livros adaptados para o cinema. Pelo contrário, é uma pena que o livro seja tão indiscutivelmente melhor.
Claro que há que se levar em conta que são duas linguagens diferentes, mas o roteiro tinha mesmo que ser tão convencional? A multiplicidade de narrativas em primeira pessoa que acabam se interceptando, tão típica dos livros do Jonathan Safran Foer, simplesmente some aqui. Com a narração restrita a Oskar, muitos dos aspectos mais interessantes da história se perdem e o filme acaba caindo num sentimentalismo meio barato – há, no mínimo, três cenas em que Oskar “surta” e joga tudo no chão, pra que esse exagero?
Estranho pensar que Stephen Daldry, o mesmo diretor de As Horas, não tenha ousado ir além da opção mais óbvia para o roteiro.

Pra mim, só vale a pena pela atuação de Max von Sydow, sensacional no papel do inquilino da avó de Oskar.
En kongelig affaire

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(Divulgação)

Traduzido como Um Caso Real, esse filme dinamarquês traz uma visão, mesmo que romanceada, da influência do Iluminismo em uma parte da Europa que não costuma ser estudada quando se fala da época. Nesse aspecto, o filme se encaixa no que parece ser um dos grandes objetivos do Berlinale: apresentar novas perspectivas e lugares nem sempre enfocados pelo mainstream, mesmo que, neste caso, seja uma nova perspectiva histórica.
Outro ponto forte é a criação dos personagens. Em filmes do gênero, ela costuma ser bem maniqueísta, mas não em Um Caso Real. Todos os personagens parecem ter suas zonas cinzas, não há heróis ufanistas, apenas seres humanos, cujas ações, em grande parte, são pautadas (ou mesmo forçadas) pelas intrigas da corte, pela defesa de interesses e ideais diversos. Um claro exemplo disso é o rei Christian VII, que desperta, ao mesmo tempo, pena, raiva e carinho por parte do público. Por sua atuação cheia de nuances, o ator Mikkel Boe Følsgaard recebeu o prêmio de melhor ator no festival.

E isso foi o que eu vi no meu primeiro Berlinale.
PS: Não foi dessa vez que comprei a bolsinha hype do festival. A desse ano estava mais fuleira que a dos Enecoms da vida.
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