Niemals

Einsamkeit

Der Wanderer über dem Nebelmeer (Caspar David Friedrich [Public domain], via Wikimedia Commons)

“Niemals ist man tätiger, als wenn man dem äusserem Anschein nach nichts tut, niemals ist man weniger allein, als wenn man in der Einsamkeit mit sich allein ist.” – Cato

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Os fariseus no Congresso

Ottobeuren

O Fariseu e o Publicano, afresco representando uma das muitas parábolas usadas por Jesus para combater a hipocrisia. (Abadia de Ottobeuren – Johannes Böckh & Thomas Mirtsch, via Wikimedia Commons)

Imagine ler, no Diário Oficial da União, que a partir de agora todos vamos ter de usar um crucifixo pendurado no pescoço. Parece absurdo? Pois algo semelhante aconteceu no Irã quando o país se tornou uma república islâmica: gradualmente, todas as mulheres do país se viram obrigadas por lei a usar o hijab em público, independente da maneira como elas se sentiam em relação às passagens do Corão que mencionam o véu.

Quando religião vira questão de Estado, até as mais simples liberdades individuais se tornam escassas. Penso nisso toda vez que leio sobre o crescente lobby religioso no Brasil. Políticos que muitas vezes se elegeram não com propostas, mas pedindo votos em pregações, vêm impondo dogmas (ou seria melhor dizer preconceitos?) a um país que sempre se caracterizou justamente pela diversidade pacífica de crenças.

O boicote da bancada religiosa à lei contra a homofobia, sob o pretexto de que isso feriria a liberdade de expressão, é quase como se os Jesuítas, no Brasil Colônia, pedissem ao rei que aprovasse uma lei que salvaguardasse o direito de dizer em homilias que negros e índios não possuíam alma. Nunca é apenas uma questão de credo, o que está em jogo são realidades sociais.

Ao resvalar para discussões baseadas na fé, deixamos de debater políticas públicas realmente com profundidade. Em um debate sobre aborto, por exemplo, pouco se abordam questões como uma possível obrigatoriedade de acompanhamento psicológico antes e depois do procedimento, planejamento familiar e a própria infra-estrutura do SUS. Não conheço nenhum país onde o aborto seja proibido devido a fatores como esses. O que prevalece são os julgamentos morais.

O flerte da política nacional com o fundamentalismo me constrange ainda mais enquanto católica praticante. Peço aos irmãos de credo que se voltem mais para a leitura do Evangelho – afinal, é ele que nos torna cristãos. Em momento nenhum, Jesus defende que o caminho para a salvação é o cumprimento de dogmas ou preceitos. Pelo contrário, em todas as oportunidades que teve, Ele escancarou a fé vazia dos fariseus. Impor sua visão de mundo como verdade absoluta aos outros não torna ninguém um melhor cristão, apenas um cidadão mais hipócrita. Que tal dar uma chance ao amor incondicional ao próximo e respeitar o livre-arbítrio?

Se essa cruzada contra o Estado laico continuar, o Brasil só terá dois destinos diante de si: tornar-se uma nação hipócrita como os EUA, onde políticos caem mais por tabus morais que por escândalos de corrupção, ou uma ditadura como o Irã, onde homens e mulheres inteligentes e promissores têm o próprio cotidiano cerceado até nas menores nuances. Será que não queremos um futuro diferente para o nosso país?