Do cotidiano eternamente interrompido

Mural de cartões da exposição Nós éramos vizinhos (Débora Medeiros)

Nosso destino inicial, naquela manhã cinza de domingo, era o mercado de pulgas de Schöneberg, um dos meus bairros favoritos em Berlim. Porém, a chuva e o vento nos impeliram para o prédio da Prefeitura do bairro, logo em frente. E assim encontramos a exposição Wir waren Nachbarn (Nós éramos vizinhos).

Inaugurada em 2005 e instalada na Prefeitura em caráter permanente desde 2010, ela contém álbuns de mais de cem famílias judias que residiam em Schöneberg e no bairro vizinho Tempelhof antes da ascensão do nazismo na Alemanha. São histórias individuais que refletem o terror que foi se instalando no país entre 1933 e 1945, detalhando pequenos atos de exclusão e discriminação no dia-a-dia daquelas pessoas, os quais possibilitaram as consequências terríveis que estão nos livros de História: a deportação para campos de concentração e o exílio.

O que mais me impressionou na exposição foi o mural de cartões contendo os nomes e algumas informações básicas de 6.069 judeus deportados dos bairros de Schöneberg e Friedenau para guetos, campos de concentração ou campos de extermínio. É impossível descrever a sensação de estar diante dessa miríade de cartõezinhos, sabendo que muitos deles são o único traço que restou dos donos daqueles nomes escritos à mão.

Por mais que as centenas de filmes e livros já produzidos sobre a II Guerra Mundial e sobre o Holocausto possam dar a sensação de que o tema se esgotou, a verdade é que ele nunca vai se esgotar – e nem deve. Lembretes cotidianos como esta exposição encontrada por acaso, as chamadas Stolpersteine – pequenas pedras fixadas no calçamento que relembram vítimas do nazismo que moravam naquele endereço – e, mais recentemente, o Monumento aos Sinto e Rom Assassinados durante o Nacional-Socialismo na Europa inaugurado ao sul do Parlamento em outubro do ano passado, trazem à luz e à lembrança praticamente todos os dias novos fatos referentes às atrocidades cometidas no período, remetendo cada passante a um cotidiano para sempre interrompido em cada vida exterminada ou banida.

E, ao mesmo tempo em que tais marcos despertam uma melancolia profunda pelo que nunca mais foi retomado, eles também devem assegurar que nenhum outro cotidiano seja interrompido dessa maneira outra vez. As testemunhas do Holocausto estão morrendo pouco a pouco e logo só restarão estes lembretes para contar suas histórias.