Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

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Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.