Tamo junto!

Dois ou três anos atrás, nessa mesma época do ano, eu estava em Fortaleza, entrevistando pessoas envolvidas na cobertura alternativa dos protestos de 2013 e 2014. Ao longo das últimas semanas, comecei a escrever meu primeiro capítulo de resultados da pesquisa, citando trechos dessas entrevistas, e é difícil descrever os sentimentos que afloram toda vez que vejo as datas em que cada conversa aconteceu. Algumas pessoas falaram comigo nos dias antes do Natal: 22, 23 de dezembro… Outras me receberam nas suas casas em pleno dia 25. Com outras, falei no comecinho de janeiro, época em que todo mundo ainda está meio zonzo do turbilhão do fim do ano e cheio de coisas pra colocar em ordem pro novo ano.

Ver essas datas me enche de gratidão por cada entrevistad@, pela disponibilidade que tiveram em falar comigo, pela franqueza das suas respostas, pela paciência em me explicar o contexto de suas vivências naqueles dois anos de muitas mudanças e intensidade. Relendo suas palavras, relembro detalhes daqueles dias: a mistura de sentimentos que cada entrevista me despertava, a correria pra falar com o máximo de pessoas possível ao longo das poucas semanas que passei no Brasil, a oportunidade de redescobrir maneiras alternativas de viver e fazer política na minha cidade natal.

Eu já conhecia muitas d@s entrevistad@s de vista, da época da graduação ou de contextos profissionais. Em outros casos, eram pessoas da geração seguinte de comunicador@s, que meus amigos conheciam. Na maioria das vezes, não viramos amigos pessoais, mas sinto um carinho e uma admiração muito grandes por cada um, por cada uma. Ao longos dos últimos dois anos, gosto de pensar que, politicamente, nos aproximamos ainda mais. A pesquisa pra tese me sensibilizou pra conceitos que, na época, @s comunicador@s que entrevistei já conheciam em profundidade.

Espero poder compartilhar os resultados da pesquisa em breve com tod@s. Por motivos de segurança, tomei a decisão de anonimizar as entrevistas, já que ninguém sabe o que vem aí nos próximos anos e não quero colaborar indireta ou inadvertidamente com a criminalização de pessoas envolvidas com movimentos sociais. Pelo contrário, espero ter feito jus à realidade que vocês me descreveram e talvez oferecer alguma reflexão sobre aqueles anos conturbados que talvez ajude futuros movimentos e mídias alternativas. Obrigada a cada uma e a cada um daqueles que entrevistei. Esse texto é só pra dizer que penso muito em vocês e que estamos juntos!

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Vontade de continuar

Duas vezes por semestre, todos os orientandos e orientandas da minha professora se reúnem para trocar ideias sobre o andamento da própria pesquisa. Normalmente gosto dessas tardes, que têm um clima cooperativo, sem rivalidades, várias críticas construtivas e, às vezes, uma cervejinha com todo mundo junto depois. No entanto, há alguns meses venho pensando com apreensão nesse encontro: está chegando a minha vez de apresentar novamente e bate o medo do meu progresso não ter sido tão significativo.

Minha última apresentação foi difícil: depois de passar um ano trabalhando na revisão bibliográfica e refinando meu projeto, ouvi críticas duras — porém justas — da minha orientadora. Apesar da minha sensação de estar bem encaminhada, ainda havia muito a definir antes de eu poder me considerar pronta pra pesquisa de fato (como me considerava antes da apresentação).

Mesmo assim, viajei pro Brasil pouco depois e conversei com o pessoal da Nigéria e do Na Rua, dois grupos que estiveram envolvidos com a cobertura independente dos protestos de 2013 e 2014 em Fortaleza. Fui contatando mais e mais gente através de cada entrevistado, que pacientemente me explicava como haviam sido as articulações entre pessoas que, antes dos protestos, se relacionavam de diversas maneiras: muitas se conheciam só de vista, outras já eram amigas desde há muito tempo, mas todas agora estavam ligadas por aquela experiência.

Além dos vários insights acadêmicos que essas entrevistas iniciais me deram, elas me encheram de esperança. Ali estão pessoas que buscam viver uma outra cidade, fazer um outro jornalismo, criar alternativas que as permitam ser verdadeiras consigo mesmas sem precisar partir (como eu precisei). Foi como um reencontro com meu eu da graduação, cheia de amor e descobertas por Fortaleza, a pele grossa pras dificuldades do dia-a-dia e o coração mole pros pequenos momentos de beleza e encontro na Cidade Solar. Um bom remédio contra o meu cinismo, contra a distância emocional que eu vinha sentindo em relação ao Brasil.

Hoje, relendo todas as anotações que já fiz no meu diário de pesquisa, iniciado há quase um ano, me peguei sorrindo a cada ideia maluca, relembrando a aflição dos questionamentos e, principalmente, sentindo orgulho do meu amadurecimento como pesquisadora ao longo desse tempo. Ainda há um longo caminho a ser trilhado, mas cada leitura, cada discussão com amigos e outros acadêmicos, cada entrevista e cada brainstorm é mais um passo na direção que vou traçando tão laboriosamente, uma direção que é só minha.

Terminei bem o mestrado e, por muito tempo, achei que simplesmente manter aquele nível era suficiente. Mas aprendi após muitas conversas com a minha orientadora e as primeiras revisões de artigos enviados para periódicos que preciso ir além, o nível de cobranças é muito mais alto e isso me assusta, mas também me inspira. O doutorado tem sido também uma lição de humildade: tenho reaprendido como pesquisar e a encontrar um equilíbrio entre cobranças externas e internas.

Doutorado é como se, aos poucos, os mais velhos fossem te deixando sentar na mesa dos adultos, mas ainda de olho se você sabe usar os talheres direito, te dizendo pra não falar de boca cheia… É um reconhecimento do seu amadurecimento, mas também de que você ainda não conhece todos os pormenores desse novo estágio. É preciso encarar críticas duras porém construtivas como oportunidades de crescer ainda mais, refinar o trabalho, não como um indício de que se deve desistir.

No fim desse dia de muitas retrospectivas, meu amigo Léo Custódio publicou uma citação que caiu como uma luva:

ganas de seguir

“Como escrever uma tese” – Umberto Eco

“Se vocês fizeram suas teses com gosto, vão ter vontade de continuar”, escreve Umberto Eco. E é assim que me sinto, com vontade de continuar neste incrível desafio.

Doo doo doo-doo doo doo doo doo


Today was one of those days I deeply regretted not having my camera with me — just to feel happy I didn’t a moment later. Berlin was really showing off today, it was like it was posing just for me: every corner seemed to shine with that delicate, quotidian beauty that would be ruined by the act of stopping and framing it in a picture. I was glad I couldn’t even be tempted to try and capture that with anything else other than my eyes, lingering on each scene for the few seconds I could without crashing my bike — the magpie jumping playfully around the garden behind a museum, the Fernsehturm framed by a quiet back street lined with trees and their pink blossoms, the Berliner sunset over a bridge, the clouds reflected in the blue shield of a subway entrance, the intricate expressions of passers-by lost in their own thoughts.

“What song best describes Berlin right now?”, I thought and started humming David Bowie’s Rebel Rebel a few seconds later. Because Berlin is exactly like this: beautiful in a crazy, non-obvious, hot mess kind of way. It’s the kind of city that feels your growing pains with you, inspires you, takes you into uniquely banal adventures, makes you laugh at yourself. It’s my kind of city. Not minding the other cyclists that sped past me, I could only sing at the top of my lungs: “Hot tramp, I love you so!”

Routine-diving

Helsinki's rooftops (Débora Medeiros)

Helsinki’s rooftops (Débora Medeiros)

Why do I love traveling? To me, it has never really been about sightseeing. Though I eventually stumble upon the main tourist attractions, I rarely go to a place with a checklist of what to see, just like I almost never read the reviews before watching a movie. I like to arrive in a new city knowing just enough to guide my wanderings, but not enough to create unrealistic expectations. So, I usually pick up a map or a few brochures and go see whatever sounds interesting at the moment. It’s much easier to be pleasantly surprised this way.

What I love the most about traveling is the possibility of abandoning my routine  almost completely for a few days and trying to immerse myself in an everyday life that isn’t mine, deciphering other customs, seeing different faces, hearing the sound of another language. I love getting lost and finding my way again, sometimes taking the longest path, sometimes wandering into a café or a bookstore to pass time.

Traveling is remembering that there is much more out there than my quotidian worries and joys — and looking forward to coming back to them with fresh eyes.

Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.