Doo doo doo-doo doo doo doo doo


Today was one of those days I deeply regretted not having my camera with me — just to feel happy I didn’t a moment later. Berlin was really showing off today, it was like it was posing just for me: every corner seemed to shine with that delicate, quotidian beauty that would be ruined by the act of stopping and framing it in a picture. I was glad I couldn’t even be tempted to try and capture that with anything else other than my eyes, lingering on each scene for the few seconds I could without crashing my bike — the magpie jumping playfully around the garden behind a museum, the Fernsehturm framed by a quiet back street lined with trees and their pink blossoms, the Berliner sunset over a bridge, the clouds reflected in the blue shield of a subway entrance, the intricate expressions of passers-by lost in their own thoughts.

“What song best describes Berlin right now?”, I thought and started humming David Bowie’s Rebel Rebel a few seconds later. Because Berlin is exactly like this: beautiful in a crazy, non-obvious, hot mess kind of way. It’s the kind of city that feels your growing pains with you, inspires you, takes you into uniquely banal adventures, makes you laugh at yourself. It’s my kind of city. Not minding the other cyclists that sped past me, I could only sing at the top of my lungs: “Hot tramp, I love you so!”

Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.

2 years of here and there

It was just another summer night, as the bus took me across town and my mp3player whispered songs in my ears. Then suddenly Rush’s Fly by Night  started playing and I was struck with the realization that the day that marked the two years since my arrival in Germany had passed more than a month ago and I hadn’t even noticed. Two whole years since this song played in my head while the plane took off and I cast one last glance at my hometown.

Quiet and pensive
My thoughts apprehensive
The hours drift away
Leaving my homeland
Playing a lone hand
My life begins today

The lyrics portrayed so perfectly how I was feeling back then: the impulse to leave the suffocating – though affectionate – familiarity of a city that watched me grow up, and venture into a place where no one knew me – simply put, Start a new chapter, find what I’m after, it’s changing every day.

Days, weeks, months passed me by. And even though my life is far from glamourous – my hours are mostly spent between chores, academic reading and writing and the occasional stroll through my Berliner suburbia -, so much has happened in these two years. Sometimes I’m amazed by how things change fast and almost effortlessly, when we find ourselves in a new country or city, starting everything from scratch.

My four months in Mannheim almost seem like a blur, a distant time when I not even knew which university – if any – would accept me. Its small town dynamics were so easy to understand, like a rehearsal of what was yet to come here in Berlin. Only the good friends I made there remain crystal clear in my mind and, whenever we meet, I feel transported back to those days.

Berlin feels like dozens of cities in one and, mixed together with memories scattered around all of them, these cities feel like home now. It is from here that I plan my adventures to other places around the globe, the brief yet essential returns to Fortaleza and my next steps, big or small.

I love arriving in this city. My favorite route is from Tegel: Moabit welcomes me quietly yet not tidily, then Tiergarten shows off with its embassies, Schloss Bellevue and the Siegessäule, Schöneberg says hello with its colorful suburban flair, until finally the streets leading to my apartment, in all their glorious plainness, fill me with warmth. By then I’m already listing what I need to buy at the supermarket around the corner and deciding when I’m going to unpack.

It took me long to feel that my life is mostly here now. I guess this only really dawned on me a couple of months ago. The thing about leaving home in the age of social media is that it can sometimes feel like you never left at all. Your body is in this new place, but your mind and heart remain firmly rooted to what they knew before.  If you’re not careful, the Internet might become your Mirror of Erised: it is amazing to be able to always chat with that beloved friend who lives across the ocean, but at the end of the day you can’t go out for a beer with them. Slowly, I learned how to welcome new people into my life without neglecting the ones that have always been there for me, no matter the distance.

I never regretted my decision to leave. I don’t know if one day Berlin will wake in me the Fly by Night  kind of feelings Fortaleza did. I just hope I can always find the balance between the places – and people – that changed my life in the past and the place I’m living in the present, finding room for all of them in my heart.

The @I_amGermany experience

That's what my Twitter profile looked like for a week.

That’s how my Twitter profile looked like for a week.

You know when you’re at a bar or a restaurant, sitting with a group of friends in one of those long, wooden tables, and a bunch of people you don’t know take the free seats next to you? I had the luck of meeting many nice folks this way here in Germany. I guess it’s the combination of beer, good food and a friendly, casual atmosphere that encourages people to be more open  around those long tables and simply listen to each others’ stories, reach out to total strangers and try to connect.

I experienced that same feeling as the curator of the @I_amGermany account. In the beginning, it was more like going on a blind date: I was worried that my life wouldn’t be interesting enough to tweet  about it for a whole week, that it would just be awkward or that I would make a faux pas in front of more than 3.000 people. But then I realized something: this isn’t just a question of talking about your life, but also of listening to other peoples’ stories and answering their questions.

And that was how I got to meet great people and discover at least a little bit about their lives. We chatted about learning languages, music, media habits, academic life and simple quotidian things. It was great seeing all these new Twitter handles pop up in my “Interactions” page, with their puns, questions, anecdotes and tips.

I’m usually a bit weary of talking about myself all the time, but I love getting to know other peoples’ realities. That’s one of the reasons I became a journalist in the first place. Thank you to all the people that reached out to me this week, you’re amazing! I hope we can keep in touch somehow and, who knows, maybe even gather around a long, wooden table at a bar sometime!

Berlin, 2011-?

Berliner snapshot (Débora Medeiros)

Berlin (Débora Medeiros)

So I finally got around to organizing all the pictures I took here in Berlin from 2011, when I spent two days in the city for a proficiency test at the university, to the Berlinale fever from the past weeks. It’s been a good couple of years.

My favorite snapshots are now on Flickr.

Festival de Berlim: o cinema e a cidade

No Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), filmes do mundo inteiro trazem temas atuais às telonas e transformam o cotidiano da capital alemã

Domingo nos arredores do Berlinale Palast, sede do festival.

Domingo nos arredores do Berlinale Palast, sede do festival (Débora Medeiros)

Um bom filme, para mim, é aquele que permanece nos meus pensamentos muito tempo depois de os créditos deixarem a tela. Na Berlinale, festival de cinema cujo nome tem gênero feminino em alemão, vejo bons filmes todos os dias, que voltam comigo no trem para casa.

É meu segundo ano de festival. No fim do ano passado, já estava em contagem regressiva para a edição de 2013, marcada para os dias 7 a 17 de fevereiro. Um dos três grandes eventos de cinema do circuito europeu, juntamente com os Festivais de Veneza e de Cannes, a Berlinale é o único dos três voltado para um grande público. Ao longo de 10 dias, milhares de espectadores (em 2012, foram mais de 400 mil) percorrem inúmeras salas de cinema de Berlim, muitas delas donas de uma história que se entrelaça à história da sétima arte na cidade, para ver sua parcela dos filmes escolhidos em meio à extensa programação.

Ao todo, são 12 mostras diferentes. Entre as já tradicionais, estão  a competição de longas-metragens que competem pelo Urso de Ouro em diversas categorias; Berlinale Special, com trabalhos recentes de diretores proeminentes e filmes em homenagem a grandes mestres do cinema; a competição de curtas, que neste ano conta com 27 filmes de 20 países diferentes; Panorama, minha mostra favorita, que apresenta longas ficcionais, documentários e curtas dos quatro cantos do planeta; Forum, cujos filmes este ano tematizam períodos de reviravoltas ou transições; Forum Expanded, uma seleção de experimentos com a linguagem áudio-visual; Generation, com filmes para o público infanto-juvenil e júris compostos de crianças e adolescentes; e Culinary Cinema, que enfoca a relação com a gastronomia em diferentes culturas e épocas.

E não é só. Ainda há a retrospectiva, por exemplo, que neste ano enfoca clássicos produzidos ou influenciados pela geração da República de Weimar após 1933, o que inclui filmes como Victor e Victória (1933), Casablanca (1942) e Cabaret (1974). Já a mostra Perspektive Deustches Kino traz a nova safra do cinema alemão, enquanto a estreante Native promete uma jornada pelo cinema indígena, enfocando, em 2013, histórias de povos da Oceania, América do Norte e Ártico.

Por fim, Hommage exibe filmes da personalidade premiada com o Urso de Ouro pelo conjunto da obra. Em 2013, o homenageado é o documentarista Claude Lanzmann, que, em seu trabalho, se dedicou principalmente à memória do Holocausto. Seu documentário Shoah (1985), de nove horas de duração, integra a programação, divido em duas partes, e contém entrevistas com sobreviventes do Holocausto realizadas ao longo de nove anos.

Para além dos números um tanto avassaladores, é interessante observar o efeito do festival sobre a cidade. Em todos os lugares se vêem pôsteres divulgando os dias do evento. Além de profissionais e jornalistas da área, fãs do cinema desembarcam do mundo inteiro em Berlim, especialmente para o festival. Para quem mora aqui, vivenciar a Berlinale é como adentrar por algumas horas um universo paralelo, de tapetes vermelhos, filmes sensacionais até em muitos cinemas de bairro e papos interessantes na fila da bilheteria – para logo depois voltar a tocar a vida, rumo ao trabalho, à casa ou à universidade.

Os noticiários ficam povoados de estrelas de cinema. Uma pequena amostra: Matt Damon (Invictus) prestigiou a exibição de Promised Land, o novo longa de Gus Van Sant (Milk), no qual atua; Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso) compareceu à estréia do seu primeiro filme que não se passa na Sicília, The Best Offer (2013); Joseph Gordon-Levitt (500 Dias com Ela) divulgou seu primeiro longa como diretor, Don Jon’s Addiction (2013); Ethan Hawke e Julie Delpy deram entrevistas sobre Antes da Meia-Noite (2013), filme que encerra a trilogia iniciada por Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do-Sol (2004), na companhia do diretor Richard Linklater; e James Franco (127 Horas) veio para divulgar três novos filmes de uma vez.

Pela minha breve e incompleta lista de celebridades que vieram à Berlinale, já dá para se ter uma ideia do que deve estrear nas salas de cinema de todo o mundo este ano. E quanto à produção brasileira? Em comparação a 2012, esta edição da Berlinale traz menos filmes do Brasil. O artista Hélio Oitica é homenageado com um documentário que leva seu nome, dirigido pelo sobrinho Cesar Oiticica Filho, além de partes da vídeo-instalação Cosmococa – program in progress, do artista, em parceria com Neville D’Almeida, exibidas pela primeira vez fora do Brasil.

Na mostra Panorama, o longa Você Nunca Disse Eu Te Amo (2013), de Bruno Barreto (O Que é Isso, Companheiro?), tem colhido elogios, após a estréia no dia 9. Anteriormente divulgado com o título Flores Raras, o filme acompanha a história de amor entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires) e a poetisa americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto).

Hoje à noite, descobriremos quem são os vencedores do Urso de Ouro deste ano. Há uma certa curiosidade para saber que efeito a presença do cineasta chinês Wong Kar-Wai (Um Beijo Roubado), que preside o júri da competição,  terá sobre os resultados. Amanhã, num dia de exibições a preços reduzidos, esta edição da Berlinale chega ao fim. E começa a contagem regressiva para 2014.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2013 do jornal O POVO, também disponível na versão online. E os resultados da premiação estão aqui.

Do cotidiano eternamente interrompido

Mural de cartões da exposição Nós éramos vizinhos (Débora Medeiros)

Nosso destino inicial, naquela manhã cinza de domingo, era o mercado de pulgas de Schöneberg, um dos meus bairros favoritos em Berlim. Porém, a chuva e o vento nos impeliram para o prédio da Prefeitura do bairro, logo em frente. E assim encontramos a exposição Wir waren Nachbarn (Nós éramos vizinhos).

Inaugurada em 2005 e instalada na Prefeitura em caráter permanente desde 2010, ela contém álbuns de mais de cem famílias judias que residiam em Schöneberg e no bairro vizinho Tempelhof antes da ascensão do nazismo na Alemanha. São histórias individuais que refletem o terror que foi se instalando no país entre 1933 e 1945, detalhando pequenos atos de exclusão e discriminação no dia-a-dia daquelas pessoas, os quais possibilitaram as consequências terríveis que estão nos livros de História: a deportação para campos de concentração e o exílio.

O que mais me impressionou na exposição foi o mural de cartões contendo os nomes e algumas informações básicas de 6.069 judeus deportados dos bairros de Schöneberg e Friedenau para guetos, campos de concentração ou campos de extermínio. É impossível descrever a sensação de estar diante dessa miríade de cartõezinhos, sabendo que muitos deles são o único traço que restou dos donos daqueles nomes escritos à mão.

Por mais que as centenas de filmes e livros já produzidos sobre a II Guerra Mundial e sobre o Holocausto possam dar a sensação de que o tema se esgotou, a verdade é que ele nunca vai se esgotar – e nem deve. Lembretes cotidianos como esta exposição encontrada por acaso, as chamadas Stolpersteine – pequenas pedras fixadas no calçamento que relembram vítimas do nazismo que moravam naquele endereço – e, mais recentemente, o Monumento aos Sinto e Rom Assassinados durante o Nacional-Socialismo na Europa inaugurado ao sul do Parlamento em outubro do ano passado, trazem à luz e à lembrança praticamente todos os dias novos fatos referentes às atrocidades cometidas no período, remetendo cada passante a um cotidiano para sempre interrompido em cada vida exterminada ou banida.

E, ao mesmo tempo em que tais marcos despertam uma melancolia profunda pelo que nunca mais foi retomado, eles também devem assegurar que nenhum outro cotidiano seja interrompido dessa maneira outra vez. As testemunhas do Holocausto estão morrendo pouco a pouco e logo só restarão estes lembretes para contar suas histórias.