Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.

Festival de Berlim: o cinema e a cidade

No Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), filmes do mundo inteiro trazem temas atuais às telonas e transformam o cotidiano da capital alemã

Domingo nos arredores do Berlinale Palast, sede do festival.

Domingo nos arredores do Berlinale Palast, sede do festival (Débora Medeiros)

Um bom filme, para mim, é aquele que permanece nos meus pensamentos muito tempo depois de os créditos deixarem a tela. Na Berlinale, festival de cinema cujo nome tem gênero feminino em alemão, vejo bons filmes todos os dias, que voltam comigo no trem para casa.

É meu segundo ano de festival. No fim do ano passado, já estava em contagem regressiva para a edição de 2013, marcada para os dias 7 a 17 de fevereiro. Um dos três grandes eventos de cinema do circuito europeu, juntamente com os Festivais de Veneza e de Cannes, a Berlinale é o único dos três voltado para um grande público. Ao longo de 10 dias, milhares de espectadores (em 2012, foram mais de 400 mil) percorrem inúmeras salas de cinema de Berlim, muitas delas donas de uma história que se entrelaça à história da sétima arte na cidade, para ver sua parcela dos filmes escolhidos em meio à extensa programação.

Ao todo, são 12 mostras diferentes. Entre as já tradicionais, estão  a competição de longas-metragens que competem pelo Urso de Ouro em diversas categorias; Berlinale Special, com trabalhos recentes de diretores proeminentes e filmes em homenagem a grandes mestres do cinema; a competição de curtas, que neste ano conta com 27 filmes de 20 países diferentes; Panorama, minha mostra favorita, que apresenta longas ficcionais, documentários e curtas dos quatro cantos do planeta; Forum, cujos filmes este ano tematizam períodos de reviravoltas ou transições; Forum Expanded, uma seleção de experimentos com a linguagem áudio-visual; Generation, com filmes para o público infanto-juvenil e júris compostos de crianças e adolescentes; e Culinary Cinema, que enfoca a relação com a gastronomia em diferentes culturas e épocas.

E não é só. Ainda há a retrospectiva, por exemplo, que neste ano enfoca clássicos produzidos ou influenciados pela geração da República de Weimar após 1933, o que inclui filmes como Victor e Victória (1933), Casablanca (1942) e Cabaret (1974). Já a mostra Perspektive Deustches Kino traz a nova safra do cinema alemão, enquanto a estreante Native promete uma jornada pelo cinema indígena, enfocando, em 2013, histórias de povos da Oceania, América do Norte e Ártico.

Por fim, Hommage exibe filmes da personalidade premiada com o Urso de Ouro pelo conjunto da obra. Em 2013, o homenageado é o documentarista Claude Lanzmann, que, em seu trabalho, se dedicou principalmente à memória do Holocausto. Seu documentário Shoah (1985), de nove horas de duração, integra a programação, divido em duas partes, e contém entrevistas com sobreviventes do Holocausto realizadas ao longo de nove anos.

Para além dos números um tanto avassaladores, é interessante observar o efeito do festival sobre a cidade. Em todos os lugares se vêem pôsteres divulgando os dias do evento. Além de profissionais e jornalistas da área, fãs do cinema desembarcam do mundo inteiro em Berlim, especialmente para o festival. Para quem mora aqui, vivenciar a Berlinale é como adentrar por algumas horas um universo paralelo, de tapetes vermelhos, filmes sensacionais até em muitos cinemas de bairro e papos interessantes na fila da bilheteria – para logo depois voltar a tocar a vida, rumo ao trabalho, à casa ou à universidade.

Os noticiários ficam povoados de estrelas de cinema. Uma pequena amostra: Matt Damon (Invictus) prestigiou a exibição de Promised Land, o novo longa de Gus Van Sant (Milk), no qual atua; Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso) compareceu à estréia do seu primeiro filme que não se passa na Sicília, The Best Offer (2013); Joseph Gordon-Levitt (500 Dias com Ela) divulgou seu primeiro longa como diretor, Don Jon’s Addiction (2013); Ethan Hawke e Julie Delpy deram entrevistas sobre Antes da Meia-Noite (2013), filme que encerra a trilogia iniciada por Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do-Sol (2004), na companhia do diretor Richard Linklater; e James Franco (127 Horas) veio para divulgar três novos filmes de uma vez.

Pela minha breve e incompleta lista de celebridades que vieram à Berlinale, já dá para se ter uma ideia do que deve estrear nas salas de cinema de todo o mundo este ano. E quanto à produção brasileira? Em comparação a 2012, esta edição da Berlinale traz menos filmes do Brasil. O artista Hélio Oitica é homenageado com um documentário que leva seu nome, dirigido pelo sobrinho Cesar Oiticica Filho, além de partes da vídeo-instalação Cosmococa – program in progress, do artista, em parceria com Neville D’Almeida, exibidas pela primeira vez fora do Brasil.

Na mostra Panorama, o longa Você Nunca Disse Eu Te Amo (2013), de Bruno Barreto (O Que é Isso, Companheiro?), tem colhido elogios, após a estréia no dia 9. Anteriormente divulgado com o título Flores Raras, o filme acompanha a história de amor entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires) e a poetisa americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto).

Hoje à noite, descobriremos quem são os vencedores do Urso de Ouro deste ano. Há uma certa curiosidade para saber que efeito a presença do cineasta chinês Wong Kar-Wai (Um Beijo Roubado), que preside o júri da competição,  terá sobre os resultados. Amanhã, num dia de exibições a preços reduzidos, esta edição da Berlinale chega ao fim. E começa a contagem regressiva para 2014.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2013 do jornal O POVO, também disponível na versão online. E os resultados da premiação estão aqui.

Memórias musicais

As_cancoes

(Divulgação)
Como é que alguém que não gosta de música faz pra se lembrar das coisas? É o que indaga Queimado, um dos protagonistas do documentário As Canções (2011), de Eduardo Coutinho. Sua história é uma das mais bonitas entre as tecidas ao longo dos cerca de 90 minutos do documentário, que preencheu minha fria noite berlinense com o calor de melodias e memórias intimamente entrelaçadas.

Quando vi que o filme passaria por aqui, soube que tinha de ir assistir. Desde Edifício Master (2002), tenho uma certeza: os documentários de Eduardo Coutinho são a realização cinematográfica do sonho de todo jornalista que entrou nessa profissão para ouvir as histórias das pessoas e (re-)apresentá-las com toda a sensibilidade que elas merecem.

Impressões de um Berlinale

Berlinale_palast_-_dbora_medei
Em fevereiro, o Theater am Potsdamer Platz vira Berlinale Palast. (Débora Medeiros)

Não sou nenhuma cinéfila, mas, quase sem me dar conta, assisti dez filmes em uma semana de Berlinale. Cada dia no 62o Festival Internacional do Filme de Berlim era sinônimo de voltar pra casa com novas histórias na cabeça, ruminando outras realidades, relatos de vida e ideias. 

E foi um acontecimento típico de Berlim: misturado ao cotidiano – não tive a sensação de que a cidade parou por causa do Berlinale -, mas reservando um butim de experiências para quem ousa parar os afazeres e comprar um ingresso. 

Pretendo repetir a dose em 2013, só que, dessa vez, desde o primeiro dia. Este ano, perdi os três primeiros dias do festival, achando que não iria conseguir ingresso. Bobagem: chegando algumas horas mais cedo, dá pra conseguir entrada pra qualquer filme, mesmo os da competição pelo Urso de Ouro. E, comprando no mesmo dia de exibição, estudante paga meia. 

Aqui vão algumas impressões (não chamaria de resenhas) dos filmes que pude ver nesse Berlinale, na ordem em que os assisti.

Ai Weiwei: Never Sorry

Never_sorry_-_alison_klayman

(Alison Klayman)

Um dos artistas mais escancaradamente críticos ao governo chinês, Ai Weiwei expõe a própria vida neste documentário com a mesma transparência que exige do regime: mostra sem medo o rosto de seu único filho, deixa-se filmar numa conversa cheia de carinho e tensões com a mãe e revela as táticas quase de guerrilha de um dos seus projetos mais interessantes, a investigação das mortes de estudantes vítimas de um terremoto em Sichuan em 2008 (o governo se recusa a tornar público o número oficial de mortos).

De acordo com a diretora Alison Klayman, essa transparência também na esfera privada é uma estratégia de defesa por si só: “Ele se esconde à plena vista,” explicou ela, em uma conversa com o público daquela primeira exibição internacional do documentário, no dia 12 de fevereiro. E, ainda de acordo com Klayman, essa é uma estratégia que parece estar se difundindo. Muitos dos jovens que trabalham com o artista têm adotado o mesmo ideal de transparência, tuitando, fotografando, filmando – registrando, enfim, sua resistência. São os “discípulos de Ai Weiwei”, como ela os chama.

Como essa disseminação de uma cultura de transparência na China afetará o futuro do país? Essa foi a pergunta que não saiu da minha cabeça depois da exibição, mesmo após ser interpelada por uma jovem chinesa claramente filiada ao Partido Comunista, que queria porque queria uma opinião negativa sobre o filme. Depois de diplomaticamente mudar o rumo da conversa para o Brasil, escapuli pra ver o segundo filme da noite.

Cesare deve morire

Cesare_-_umberto_montiroli
(Umberto Montiroli)

O docudrama dos irmãos Taviani definitivamente mereceu o Urso de Ouro. A ideia de fazer o público acompanhar um grupo de detentos nos ensaios para uma montagem de Júlio César, de Shakespeare, na cadeia é uma sacada em prol do humanismo e da reabilitação. 

Aqueles homens, condenados muitas vezes à prisão perpétua, parecem, nos ensaios, meninos brincando no quintal de casa, por não poder jogar na rua: revisam o texto em suas celas, perdem a noção do tempo refazendo cenas durante o banho de sol, acompanham ansiosos a reforma do auditório do presídio.

E a escolha justamente de uma peça que fala sobre liberdade e soberania reforça ainda mais o contraste. Uma das cenas que mais me marcou foi o discurso de Brutus (Salvatore Striano), no meio do pátio da prisão, bradando pela liberdade de Roma, diante de uma audiência que o assistia atrás das grades.

Olhe pra mim de novo

Olhe_-_divulgao

(Divulgação)

Sylvio Luccio tem uma história incrível, tanto que virou o único personagem de um documentário cuja proposta inicial era acompanhar vários protagonistas. Ao mesmo tempo, o que se vê na tela é mais um cara que quer ter uma vida normal – casado, pensando em ter filhos – que talvez só tenha vivenciado tantas coisas por ser um transsexual masculino. “Eu não fui só excluído pela minha família, pela escola, pelos amigos, ou pelo mundo masculino e feminino. Fui excluído do meu direito de ser cidadão brasileiro e ser humano”, declarou ele, em uma conversa com o público após a exibição do filme.

Olhe pra mim de novo é um retrato do esforço quase exaustivo que muitos LGBTs empreendem diariamente na busca por uma vida normal, que lhes é negada pelo preconceito contra sua orientação – ou contra sua identidade – sexual. Enquanto tenta realizar o sonho do primeiro filho, Sylvio conduz o público do documentário pelos sertões nordestinos, mostrando histórias de outras pessoas que sofrem por ser diferentes. E esse trajeto, com as cores quentes dos cenários familiares da minha infância, despertou uma nostalgia danada.

Sylvio fala abertamente dos sentimentos e da sexualidade que vivencia como transsexual, com frases às vezes
até cafajestes, que provocavam riso – às vezes cúmplice, às vezes desconcertado – na platéia. No Festival de Gramado de 2011, tanta franqueza pareceu ofender algumas pessoas. Não será essa também uma forma de preconceito? Em Berlim, o conservadorismo brasileiro nessa área causou perguntas espantadas.

Xingu

Xingu_-_dbora_medeiros
Parte da equipe de Xingu em conversa com o público, no dia 15 de fevereiro. (Débora Medeiros)

Impossível não associar a história dos irmãos Villas-Bôas, na tela, à polêmica em torno da usina hidrelétrica de Belo Monte, nos jornais. Ao contar a história da criação do Parque Indígena do Xingu, o diretor Cao Hamburger parece querer lembrar o tamanho da conquista representada por essa reserva indígena, ao mesmo tempo em que retrata a gênese de muitos dos erros que desaguaram em Belo Monte (não é à toa que o projeto vem desde a ditadura militar).

Depois da exibição, o diretor respondeu algumas perguntas do público, juntamente com os atores Caio Blat e João Miguel (Leonardo e Cláudio Villas-Bôas, respectivamente) e de alguns dos produtores do filme. Ao ser questionado sobre Belo Monte, não usou meias palavras: “Nessa cena em que o presidente estava inaugurando a Transamazônica, é a mesma cidade onde estão construindo Belo Monte (Altamira). Naquela época, tínhamos uma ditadura, mas agora temos um governo democrático e estamos cometendo o mesmo erro. Estamos perdendo uma oportunidade de construir um novo paradima de progresso, respeitando o meio ambiente,” disse Cao.

Sophie’s Choice

Sophieschoice_-_divulgao

(Divulgação)

A homenageada este ano no Berlinale foi Meryl Streep e muitos filmes que marcaram a sua carreira estavam em cartaz. Aproveitei para ver Sophie’s Choice, baseado no livro do americano William Styron. Confesso que foi estranho, até um pouco pertubador, ver um filme com menções diretas às barbaridades do nazismo em meio a um público predominantemente alemão.

Os diálogos em alemão nos campos de concentração, nos flashbacks de Sophie, eram de uma crueza cortante até para os meus ouvidos de estrangeira que aprendeu o idioma muito recentemente. Inevitável não se perguntar como os próprios alemães ao meu redor se sentiram quando Sophie, em sua narrativa, se referia não aos nazistas isoladamente, mas “aos alemães”, enquanto relembrava as crueldades da época.

Terá sido uma escolha deliberada dos curadores do festival?

Words of Witness

Words_-_divulgao

(Divulgação)

O documentário acompanha Heba Afify, de 22 anos, que começou a trabalhar como jornalista apenas três meses antes da revolução que derrubou o ditador Husni Mubarak no Egito. Além da sensação incrível de ver alguém da minha geração fazendo tanta diferença, o filme é interessante por mostrar aquilo que não chegou com tanta força às manchetes dos jornais ocidentais: os acontecimentos pós-revolucionários.

Enquanto Heba apura suas pautas, acompanhamos os conflitos entre cristãos e muçulmanos (que haviam lutado unidos durante a revolução), o papel ambíguo do exército, a emoção de muitos egípcios ao votar pela primeira vez na vida, o uso das redes sociais, a permanência de manifestantes na Praça Tahrir e sua retirada, forçada pelo exército. O próprio cotidiano de Heba diz muito sobre a realidade do país: membro da classe média egípcia, ela discute com a mãe (que é tão moderninha como muitas mães brasileiras e tem até perfil no Facebook) sobre os riscos de se envolver em coberturas políticas, se sente em casa escrevendo em inglês e hoje colabora até com o New York Times

Entre os momentos mais marcantes do filme, estão as cenas em que Heba entrevista anônimos em meio à multidão. Todos correm para ser ouvidos, querem contar suas histórias, apresentar seus argumentos, tirar uma foto. É como se, com a possibilidade da democracia, as pessoas percebessem também o papel essencial da imprensa para que essa possibilidade se concretize.

In the shadow of a man

Shadow_-_hannah_abdalla

(Hanan Abdalla)

Exibido em dobradinha com Words of Witness, este documentário enfoca os direitos da mulher na sociedade egípcia e retrata como ainda há muitas revoluções a serem desencadeadas na esfera privada – talvez até mais difícil de ser transformada que a pública. 

Wafaa, Suzanne, Shahinda e Badreya: quatro mulheres de realidades bem diferentes contam suas histórias, repletas de sonhos, frustrações, opiniões decididas, afeto, memórias. Por não se concentrar somente na capital do país e explorar regiões mais pobres, o documentário apresenta uma perspectiva mais ampla do Egito pós-Mubarak que Words of Witness.

Uma observação interessante: essa foi a primeira exibição dos dois documentários no Berlinale e, na fila, os últimos ingressos eram disputados quase a tapa. Isso é um exemplo do que eu já tinha percebido em outras sessões – as pessoas querem ver, na telona, histórias reais do mundo em que
habitam, quem sabe até fazer do cinema uma ferramenta para entender melhor as diversas transformações que, de uma forma ou de outra, puderam acompanhar no noticiário ao longo de 2011.

A seleção do Berlinale realmente tocou muito nesse aspecto. Além dos dois filmes egípcios, havia documentários sobre o extremismo de direita que ressurgiu na Alemanha (Blut muss fließen), sobre a luta contra o projeto de lei anti-gay na Uganda (Call me Kuchu), sobre os protestos na Espanha (Indignados) e diversos filmes sobre a Primavera Árabe (por exemplo, The Reluctant Revolutionary). Queria ter podido ver todos, mas quem sabe tenho mais sorte (e tempo) em 2013.

Tabu

Tabu_divulgao

(Divulgação)

A narração do filme, feita pelo próprio diretor Miguel Gomes, dá um tom de realismo fantástico à história, apesar desta não possuir aspectos explicitamente surreais. As grandes sacadas de Tabu são justamente os pequenos detalhes da narrativa, como a maneira cronológica como a história é contada (na primeira parte, em dias; na segunda parte, em meses, por razões quase fisiológicas).

Em Paraíso, segunda das duas partes que compõem o filme, não há um único diálogo, mas muitas músicas e ruídos do ambiente, que parecem ficar ainda mais altos na ausência de vozes. O recurso assinala o caráter de lembrança do que está sendo contado, como se estivéssemos nós mesmos dentro da mente de alguém que recorda acontecimentos de décadas atrás: ninguém se lembra exatamente de todas as palavras ditas, mas as canções e as imagens geralmente permanecem.

Não é coincidência que Miguel Gomes, que declarou ter pretendido fazer um filme tradicional, tenha recibido justamente o prêmio de inovação Alfred Bauer no Berlinale.

Extremely Loud and Incredibly Close

Extremely_divulgao

(Divulgação)

O livro é melhor. Mas constato isso não com aquele gostinho pretencioso e meio masoquista que a maioria dos fãs parece sentir quando vêem seus livros adaptados para o cinema. Pelo contrário, é uma pena que o livro seja tão indiscutivelmente melhor.
Claro que há que se levar em conta que são duas linguagens diferentes, mas o roteiro tinha mesmo que ser tão convencional? A multiplicidade de narrativas em primeira pessoa que acabam se interceptando, tão típica dos livros do Jonathan Safran Foer, simplesmente some aqui. Com a narração restrita a Oskar, muitos dos aspectos mais interessantes da história se perdem e o filme acaba caindo num sentimentalismo meio barato – há, no mínimo, três cenas em que Oskar “surta” e joga tudo no chão, pra que esse exagero?
Estranho pensar que Stephen Daldry, o mesmo diretor de As Horas, não tenha ousado ir além da opção mais óbvia para o roteiro.

Pra mim, só vale a pena pela atuação de Max von Sydow, sensacional no papel do inquilino da avó de Oskar.
En kongelig affaire

A-royal-affair_divulgao

(Divulgação)

Traduzido como Um Caso Real, esse filme dinamarquês traz uma visão, mesmo que romanceada, da influência do Iluminismo em uma parte da Europa que não costuma ser estudada quando se fala da época. Nesse aspecto, o filme se encaixa no que parece ser um dos grandes objetivos do Berlinale: apresentar novas perspectivas e lugares nem sempre enfocados pelo mainstream, mesmo que, neste caso, seja uma nova perspectiva histórica.
Outro ponto forte é a criação dos personagens. Em filmes do gênero, ela costuma ser bem maniqueísta, mas não em Um Caso Real. Todos os personagens parecem ter suas zonas cinzas, não há heróis ufanistas, apenas seres humanos, cujas ações, em grande parte, são pautadas (ou mesmo forçadas) pelas intrigas da corte, pela defesa de interesses e ideais diversos. Um claro exemplo disso é o rei Christian VII, que desperta, ao mesmo tempo, pena, raiva e carinho por parte do público. Por sua atuação cheia de nuances, o ator Mikkel Boe Følsgaard recebeu o prêmio de melhor ator no festival.

E isso foi o que eu vi no meu primeiro Berlinale.
PS: Não foi dessa vez que comprei a bolsinha hype do festival. A desse ano estava mais fuleira que a dos Enecoms da vida.