Vontade de continuar

Duas vezes por semestre, todos os orientandos e orientandas da minha professora se reúnem para trocar ideias sobre o andamento da própria pesquisa. Normalmente gosto dessas tardes, que têm um clima cooperativo, sem rivalidades, várias críticas construtivas e, às vezes, uma cervejinha com todo mundo junto depois. No entanto, há alguns meses venho pensando com apreensão nesse encontro: está chegando a minha vez de apresentar novamente e bate o medo do meu progresso não ter sido tão significativo.

Minha última apresentação foi difícil: depois de passar um ano trabalhando na revisão bibliográfica e refinando meu projeto, ouvi críticas duras — porém justas — da minha orientadora. Apesar da minha sensação de estar bem encaminhada, ainda havia muito a definir antes de eu poder me considerar pronta pra pesquisa de fato (como me considerava antes da apresentação).

Mesmo assim, viajei pro Brasil pouco depois e conversei com o pessoal da Nigéria e do Na Rua, dois grupos que estiveram envolvidos com a cobertura independente dos protestos de 2013 e 2014 em Fortaleza. Fui contatando mais e mais gente através de cada entrevistado, que pacientemente me explicava como haviam sido as articulações entre pessoas que, antes dos protestos, se relacionavam de diversas maneiras: muitas se conheciam só de vista, outras já eram amigas desde há muito tempo, mas todas agora estavam ligadas por aquela experiência.

Além dos vários insights acadêmicos que essas entrevistas iniciais me deram, elas me encheram de esperança. Ali estão pessoas que buscam viver uma outra cidade, fazer um outro jornalismo, criar alternativas que as permitam ser verdadeiras consigo mesmas sem precisar partir (como eu precisei). Foi como um reencontro com meu eu da graduação, cheia de amor e descobertas por Fortaleza, a pele grossa pras dificuldades do dia-a-dia e o coração mole pros pequenos momentos de beleza e encontro na Cidade Solar. Um bom remédio contra o meu cinismo, contra a distância emocional que eu vinha sentindo em relação ao Brasil.

Hoje, relendo todas as anotações que já fiz no meu diário de pesquisa, iniciado há quase um ano, me peguei sorrindo a cada ideia maluca, relembrando a aflição dos questionamentos e, principalmente, sentindo orgulho do meu amadurecimento como pesquisadora ao longo desse tempo. Ainda há um longo caminho a ser trilhado, mas cada leitura, cada discussão com amigos e outros acadêmicos, cada entrevista e cada brainstorm é mais um passo na direção que vou traçando tão laboriosamente, uma direção que é só minha.

Terminei bem o mestrado e, por muito tempo, achei que simplesmente manter aquele nível era suficiente. Mas aprendi após muitas conversas com a minha orientadora e as primeiras revisões de artigos enviados para periódicos que preciso ir além, o nível de cobranças é muito mais alto e isso me assusta, mas também me inspira. O doutorado tem sido também uma lição de humildade: tenho reaprendido como pesquisar e a encontrar um equilíbrio entre cobranças externas e internas.

Doutorado é como se, aos poucos, os mais velhos fossem te deixando sentar na mesa dos adultos, mas ainda de olho se você sabe usar os talheres direito, te dizendo pra não falar de boca cheia… É um reconhecimento do seu amadurecimento, mas também de que você ainda não conhece todos os pormenores desse novo estágio. É preciso encarar críticas duras porém construtivas como oportunidades de crescer ainda mais, refinar o trabalho, não como um indício de que se deve desistir.

No fim desse dia de muitas retrospectivas, meu amigo Léo Custódio publicou uma citação que caiu como uma luva:

ganas de seguir

“Como escrever uma tese” – Umberto Eco

“Se vocês fizeram suas teses com gosto, vão ter vontade de continuar”, escreve Umberto Eco. E é assim que me sinto, com vontade de continuar neste incrível desafio.

Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.

A vida é tão maior que isso

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80 (Yuri Leonardo)

Dizem de alguns povos que são como formigas, diligentes e submissos à coletividade. Pensando assim, Fortaleza é como um formigueiro que acabou de ser pisado: cada formiga corre, sozinha e desnorteada, na tentativa de deixar o caos para trás.

Ônibus apinhados de gente, ruas atulhadas de carros. Não existe contra-fluxo: todas as horas são horas do rush.  Nos corpos, sempre em rota de colisão, a sensação renitente de que o inferno são os outros. Na verdade, o inferno está em cada um.

São pobres diabos que, imersos no próprio egoísmo, viram legião, possuindo a cidade que os abriga, em uma confusão de vontades individuais inconciliáveis. O que importa é prevalecer sobre o outro, mas ninguém de fato prevalece. E todos amaldiçoam a cidade, sonham com o dia em que fugirão dela. É mais cômodo que tentar transformá-la.

Fortaleza é um lugar hostil. O sol é escorchante, onipresente. Cega os olhos, torra a pele. À beira-mar, espigões privatizam o vento que poderia aliviar o dia-a-dia abrasador. E, quando a chuva vem, não lava as ruas nem as almas. Inunda-as.

Mas é só olhar pro céu para esquecer tudo isso. Mesmo com a vista quase sempre posta nas pedras de calçamento – para não tropeçar –, ainda encontro alívio em ver de relance a vastidão azul que paira imperturbável sobre todos nós, como a escancarar a pequenez de nossas aflições. Nos dias cada vez mais próximos do meu futuro, não haverá sempre um céu assim.

Mariana Kuroyama desenhando linhas

Mariana e algumas de suas criações. (Mariana Kuroyama)

Já tinham me dito que você quase nem sente a agulha na pele, quando é a Mariana Kuroyama quem está te tatuando. Ela mesma diz que tem a mão leve, mas acho que é mais que isso: a leveza é seu jeito de ser.

Mariana é jornalista por formação, mas largou a vida de leads pra fazer arte. Cria tatuagens, roupas, pinturas, ilustrações e é fascinada pela natureza. Coloca em prática todo dia um pouco do tema da sua monografia, a permacultura.

Por e-mail, conversamos sobre esses temas e sobre a vida nas cidades onde ela mora ou já morou.

Pra começar, a pergunta de praxe: como você começou a tatuar e o que te atraiu nesse tipo de expressão artística?
Mariana Kuroyama: Então, fiz um trabalho sobre a tatuagem, a pichação e o graffite durante o período de faculdade. Ainda não tinha me tatuado, mas achava lindo. Estudei a fundo e quebrei certos paradigmas. Entendi  que a tatuagem não é uma expressão marginal, e sim uma arte, uma representação, um ritual de passagem em sociedades milenares, como a celta ou a japonesa. Isso me atraiu ainda mais. Anos depois fiz a minha primeira tattoo com o Dereka, ele já conhecia meu trabalho através de pinturas em roupas. Alguns amigos já tinham me dito para eu fazer desenhos de tattoos para eles. Uni uma coisa a outra e pedi pr’o Dereka me ensinar. Ele é um verdadeiro mestre, não só na arte da tatuagem, como sobre as coisas espirituais da vida. Ele e também o Júnior Animal.  Eles são geniais. Fiquei dois anos no studio do Dereka, o Freedom of Tattoo, onde conheci outros tatuadores muito bacanas, pessoas do bem que amam arte. A tattoo pra mim é uma forma de arte mais profunda… As pessoas geralmente pensam “ah, mas isso vai ficar pra vida inteira…” Ora, mas e a gente não morre? Morre o corpo… E a alma segue adiante. De qualquer forma, ter ou não uma tattoo é uma escolha muito pessoal que deve ser respeitada.

Você mesma tem algumas tattoos. Qual a história delas?
Mariana: O bracelete vermelho está localizado na articulação da intenção (de acordo com a matemática do calendário da paz) e é composto por corações. Representa minha intenção de amar incondicionalmente a vida, as pessoas, o próprio amor. Foi feita pelo Dereka. Os corações dos pés fazem parte de uma história antiga, já tinha o desenho guardado antes de aprender a tatuar. O passarinho, também no pé, fiz aproveitando uma flor que tinha no tornozelo. Estas duas fiz eu mesma, pra poder sentir como é fazer a tattoo em si mesmo. A da perna é um crop circle, foi feita pelo Tinico (Rosa) e representa minha crença na vida inteligente, no amor e na arte também em outros planetas.

Além de tatuagens, você também faz ilustrações e roupas. De que forma todas essas coisas estão relacionadas na sua vida?
Mariana: Vixe… Um amigo me emprestou um livro uma vez, que falava sobre a arte islâmica. Lá eles detalhavam como os artesãos trabalham com esmero em diferentes superfícies. Da maior mesquita à menor caixinha, tudo é repleto de uma arte meticulosa. Olhei para isso e pensei, “posso desenhar em qualquer superfície.” Na verdade, eu sempre desenhei, ilustrei papéis, provas, cadernos de colégio, etc. As roupas e as tattoos foram consequencia disso. As roupas aconteceram meio sem querer, me inscrevi no Projeto Palco por sugestão de um amigo e ganhei o concurso de novos talentos. Depois começei a pensar em uma moda mais original, atemporal, feita por encomenda e exclusiva. As tattoos, tu já sabes.

Você escolheu estudar, na faculdade, não algo relacionado diretamente à arte, mas a modos de vida: a permacultura. De que forma esse tema está presente na sua rotina?
Mariana: Então… A Permacultura está além de uma filosofia, é uma prática que engloba várias outras como a agrofloresta, reciclagem, compostagem, bioconstrução… Xi, vai longe. É uma quebra de paradigma, da competição para a cooperação (do homem para com o meio). E representa, pra mim, o uso da inteligência humana em busca de uma harmonia ideal. Morando no meio urbano, faço o que posso, em casa tenho uma minhocasa que composta o lixo orgânico produzido, e esse composto vai para as plantas. Planto alguns temperos. Me locomovo de bicicleta e transporte público. Só compro para mim aquilo que estou realmente precisando, não fico consumindo por consumir. E uso o meu trabalho para fazer o link entre pessoas que trabalham com isso. Em São Paulo doei, junto com uma amiga, uma pintura para um centro de permacultura urbana, a Casa Jaya. Acho fundamental atrelar a arte a estas causas. Outras coisas me afligem, coisas que não posso mudar sozinha, como o sistema de saneamento, por exemplo. Até quando vamos jogar dejetos no mar? Precisamos de uma mudança na criação da construção civil. Precisamos de muitas mudanças, já! E precisamos fazer isso juntos.

É possível levar uma vida sustentável, quando se vive em grandes cidades?
Mariana: Olha… Acho que as grandes cidades são como feridas na Terra. E precisam de agentes de cura dentro delas. Acho que é possível fazer por onde, tem que estar alerta, consciente. Estamos todos num mesmo barco, procurando crescer e aprender e muitas pessoas pensam nisso, outras agem, outras nem prestam atenção… Acham que é só marketing. Como eu disse na pergunta anterior, precisamos de muitas mudanças, e precisamos fazer isso juntos.

Por falar em grandes cidades, você já morou em Brasília, Fortaleza e está atualmente em São Paulo. De que maneira cada um desses lugares fez de você quem você é hoje? 
Mariana: Em Brasília eu tinha muito contato com a natureza, muito mesmo, amaaaaava ficar nas cachoeiras, nas florestas que meus pais me levavam, e também em frente ao meu prédio, era uma mini floresta. Isso é a minha lembrança mais nítida de amar a vida. Sempre vinha pra cá de férias, então também sentia a ligação forte com o mar. Morei no Rio também, quando era criança, e lá a natureza também era exuberante. Aqui foi onde passei mais tempo e nossa… aprendi bastante aqui com relação ao que eu quero ou não pra mim. E conheci pessoas maravilhosas que serão sempre minha família, e aprendi muito sobre tolerância, paciência, calma, amor ao próximo. São Paulo é outro ritmo, ainda está em fase de teste, hehehe, mas devo dizer que amo estar lá. Sem muitas explicações, vou vivendo, de acordo com o coração.

Qual delas você considera sua cidade natal?

Mariana: Nenhuma delas e todas, como eu disse pro orkut: minha cidade natal é a Terra.

Você se vê morando em um lugar pra sempre? Por quê?

Mariana: Sim, porque acho que precisamos de uma base, mas posso estar errada. Viajar é preciso, afinal.

Veja aos trabalhos dela no flickr. Mariana também está no twitter: @kuroyamaSun.

Todas trabalhadas nas artes cênicas

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Foto de Bruno Reis. As fotos do espetáculo e no camarim que aparecem ao longo da entrevista são da Lara Vasconcelos.

Deydiane Piaf, Yasmin Shirran, Verônica Valentino e Gisele Almodóvar: quatro travestis com histórias de vida e personalidades tão particulares, que a gente quase esquece que elas são personagens, surgidas da criatividade dos atores Denis Lacerda, Diego Salvador, Jomar Carramanhos e Silvero Pereira, respectivamente. Os quatro contracenam na peça Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis, em cartaz todas as quintas-feiras de maio, às 20h, no SESC Iracema.

Baseado no livro Engenharia Erótica: Travestis no Rio de Janeiro, do psicanalista Hugo Denizart, Engenharia Erótica fecha uma trilogia iniciada por Silvero em 2004, com o esquete Uma Flor de Dama, baseada no conto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, e em entrevistas com travestis e transformistas cearenses. A peça ficou em cartaz durante cinco anos e foi ganhando novos formatos, que desembocaram no Cabaré da Dama, que, além do esquete original, incorpora performances de atores e transformistas.

Em comum, as três peças têm o fato de aproximarem o público de uma realidade desconhecida pela maioria, mostrando o cotidiano das travestis em suas mais diversas facetas, desde a luta contra o preconceito até momentos líricos, como as performances musicais, tão ecléticas que incluem até dublagens de virais como Eu sou Stefhany e clássicos como Nowadays, do musical Chicago.

Algumas horas antes do espetáculo, eu e Bruno Reis conversamos com Silvero, Denis, Diego e Jomar no camarim do SESC Iracema sobre o processo de criação da Engenharia Erótica e algumas das questões abordadas pela peça. A entrevista também está disponível no blog do Bruno, com outro texto de abertura.

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Débora Medeiros – Antes do Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis, vocês trabalharam no monólogo Uma Flor de Dama e depois no Cabaré da Dama, que agregava ao monólogo performances de travestis, interpretados por atores ou não. Qual a relação dessas duas peças anteriores com o Fábrica?
Silvero Pereira – O Flor de Dama começa de uma inquietação minha como artista sobre o universo dos transformistas, dos travestis, sobre o preconceito que eles sofrem, um preconceito social, mas um preconceito artístico também. Artístico no que se refere ao transformismo(ato de interpretar no palco alguém do sexo oposto, seja em uma peça ou em uma boite), que não é reconhecido como artista no meio de trabalho, não só pela sociedade como também pela classe artística, teatral, de bailarinos. Então, essa minha inquietação veio a partir disso.

E aí, o Uma Flor de Dama vem pra falar sobre sociedade, na verdade. Usando o universo dos travestis, usando uma personagem travesti, mas o que ele quer falar mesmo é sobre sociedade, como a gente discrimina as pessoas por elas terem tomado uma opção que não se conformam aos paradigmas vigentes, às regras sociais. E aí, elas ficam à margem, por isso são discriminadas.

No Cabaré da Dama, a gente tenta elevar a qualidade do artista transformista. Então, o Cabaré da Dama, embora tenha o solo Flor de Dama dentro do espetáculo, convida atores pra serem transformistas dentro da peça, mas convida também transformistas que realmente atuam na noite de Fortaleza, assim como convida pessoas que querem experimentar o transformismo. A ideia é fazer com que os transformistas tenham um espaço artístico diferente, que não seja só as boates, e não seja só as boates LGBTTs, mas também os teatros, que eles começassem a ocupar também os teatros e que o público que vai assisti-los pudesse enxergá-los como uma categoria de arte, não só como marginal.

Já o Engenharia Erótica, não: ele vem pra fazer uma passagem pelo universo dos travestis e transformistas, é um espetáculo fragmentado, é um espetáculo de entretenimento. E é um espetáculo de informação também, mas o Engenharia tem uma diferença porque, na verdade, não se aprofunda muito nas questões, ele pretende mostrar um pouco, tornar visível esse o universo. É o que eu chamo de teatro documentário, porque nasceu de tudo o que eu pesquisei ao longo desses oito anos trabalhando com esse universo, eu fui selecionando coisas. E aí, vem um livro muito importante, que é oEngenharia Erótica: Travestis no Rio de Janeiro, que é do psicanalista carioca, Hugo Denizart, que foi muito gentil, cedeu os direitos do livro pra gente trabalhar. E o livro é recortado também, pois é feito apenas de registros de entrevistas. Ele não defende nem discrimina, ele não toma partido; ele não toma nenhuma posição com relação à vida dos travestis, ele simplesmente transcreveu o texto nu e cru. O livro é só uma transcrição das entrevistas. E aí, o espetáculo também queria trabalhar com isso, o espetáculo queria trabalhar com diversas cenas que pudessem mostrar o travesti na rua, o travesti sendo espancado pelo garoto com quem ele vive, o travesti se bombando, o travesti solidário, mas também o travesti agressivo, o travesti transformista…

Denis Lacerda – Enfim, acho que as várias facetas.

Silvero – … a mãe de um travesti. A gente queria dar uma pincelada sobre esse universo, queria que as pessoas assistissem ao espetáculo e saíssem daqui com várias imagens. No caso da transformista, suas várias facetas: a caricata, a drag, o dueto, o romântico, o internacional, o nacional. Enfim, a gente queria mostrar o leque que existe, a aquarela que existe nesse universo. Então, o espetáculo é mais isso: é um passeio pelo universo dos travestis, dos transformistas.

Denis – E até aquela questão de como a sociedade vai mudando, porque, antigamente, você tinha uma rejeição até pela questão da homossexualidade em si, para além de ser ou não travesti. Hoje em dia, vai se quebrando um pouco as barreiras. Não se quebrou tanto, mas é uma coisa que vai com o tempo. Hoje em dia, as pessoas vêm ver o espetáculo e se encantam, porque elas vêem com outros olhos, elas passam a participar daquele universo, né? Dizem: “Ai, o travesti é só isso?” Mas não, quando elas vêem que eles também querem ter família, que eles são amor, que eles não são tão agressivos, que eles só querem viver!

Silvero – É, e a gente também não quer mostrar só o lado marginal. Porque, quando se pensa em travesti, as pessoas vêm pro espetáculo pra verem o que tem de mais podre, o que tem de mais horrível na vida deles. E a gente faz exatamente o oposto no espetáculo, a gente mostra o espetáculo de forma muito luxuosa, com muitos figurinos, com muita luz, com muita maquiagem, quase como uma passarela de moda – inclusive, a concepção do espetáculo é essa, da passarela, até porque a passarela delas é a rua, é a avenida mesmo. Então, a gente usa a concepção do espetáculo nesse sentido, a gente quer mostrar de uma outra forma, não quer mostrar o que é convencional, o que se acha que já se vai ver no espetáculo, a gente quer inverter isso.

Bruno Reis – Puxando um pouco essa história que você falou no começo, que os transformistas não eram reconhecidos até pela classe artística, como artistas mesmo. Dentro desse trabalho, que você já tá há algum tempo – acho que o Denis também…

Denis – Esse ano fez um ano que eu entrei no Cabaré da Dama.

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Bruno – Então, a partir dessa experiência de vocês de entrar um pouquinho nesse mundo, o que vocês perceberam que tem de semelhança entre as duas questões? Porque tem um personagem do documentário que chega a falar de Stanislavski, fala da construção da personagem, porque ele acha que o travesti, o transformista passa também por esse processo. O que vocês acham dessa questão, como atores?

Silvero – Dentro da classe artística teatral, a gente sofreu um preconceito enorme no início do trabalho, quando só tínhamos Bernardo (Bernardo Vitor fez parte do espetáculo Cabaré da Dama, com a personagem), Jomar (Jomar Carramanhos, a Verônica Valentino do Cabaré e do Fábrica) e eu. Éramos só os três. Então, nós três sofremos um preconceito enorme. Inclusive, eu, no início, quando comecei a convidar atores pra fazerem transformistas, todos disseram não, menos o Jomar e o Bernardo, que resolveram fazer o trabalho. Sofremos um preconceito enorme, por sermos atores fazendo transformistas, porque diziam que já tem um estigma de que homem que faz teatro é homossexual e aí quer sempre se libertar na cena. E no nosso trabalho não é essa questão, nó não estamos fazendo travestis porque queremos nos libertar, usar isso como psicodrama. Nós fazemos porque isso nos incomoda, nos incomoda o que fazem com eles, nos incomoda, como artistas e como pessoas, essa discriminação. E aí, dentro desse trabalho, muitos outros atores, vendo a progressão que o trabalho teve, o sucesso que o trabalho teve, resolveram participar também e hoje a gente tem uma equipe de quase 15 pessoas que fazem parte do espetáculo.

Hoje, a gente avalia, artisticamente, da mesma forma(transformistas/travestis e atores), por isso que a gente defende tanto essa questão de que o transformista precisa sair desses guetos e aparecer mais como categoria de arte, inclusive até brigar agora por editais de incentivo à arte pro trabalho do transformista, porque passa pelas mesmas questões, pelos mesmos estudos. Existem transformistas que a gente conhece que têm estudos teóricos sobre o surgimento do transformismo, onde foi que isso surgiu, como é que isso surgiu, de onde vem. E o transformismo já vem do teatro mesmo, quando as mulheres não podiam fazer e eram os homens que tinham de fazer (os papeis femininos).

Já vem dessa raiz do teatro, que se perdeu muito durante a Idade Média e tal. Mas, enfim, a gente começou a perceber essa coisa similar entre ser artista, entre ser ator, entre ser transformista, entre ser bailarino, que também passa anos estudando pra poder subir no palco, subir numa ponta. O travesti, transformista passa meses estudando uma música, estudando a coreografia, elaborando o seu figurino, alguns têm personagens mesmo construídos, como você falou do documentário. Tipo assim, a gente faz até uma brincadeira: se as pessoas conseguem respeitar o clown, que são artistas que fazem esse personagem pelo resto da vida, por que não respeitam um ator que cria o seu transformista, o seu travesti e faz esse personagem também pelo resto da vida?

Denis – E é até algo que eu aprendi na vida, é muito fácil quando você fala: “Ah, ele só sabe fazer isso”. Vem fazer o que eu faço! Sabe? Vem fazer o meu trabalho, porque você pode dizer: “eu posso substituir”, mas não vai conseguir. Porque cada um tem a sua identidade, cada menino que tá no espetáculo tem a sua identidade. E quando o Silvero começou com o Jomar e o Bernardo e sofreu preconceito, eu não tinha nem assistido a peça ainda e tudo, tinha visto só o Silvero(no ainda monólogo Flor de Dama), não tinha visto o Cabaré em si. Eu falei: “Ah, bacana!” Não imaginava que um dia eu iria participar e que um dia eu estaria no Engenharia, no projeto em si. É algo que eu tinha até comentado: eu vi o cabaré e disse “Ai, massa, legal”… Mas, a partir do momento que eu passei a conviver e viver aquilo que os meninos já estavam vivendo, eu comecei a ver com outros olhos, com os olhos de quem acolhe, de quem acredita no processo e acredita no trabalho. Porque eu posso julgar, só porque eles fazem travestis, porque eles se vestem de mulher no espetáculo? Tem tanta gente que faz espetáculo e só faz homem galã, homem galã, homem galã; mulher que só faz doida, doida, doida? E aí, cara? É a característica dele, é a pesquisa dele, é cada um, cada um tem uma identidade, cada grupo, cada projeto tem a sua identidade. Então, tem que fazer aquilo em que acredita. E se fosse algo tão marginalizado, o espetáculo não teria feito tanto sucesso, as pessoas não teriam vindo tantas vezes.

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Débora – Ao contrário da peça Uma Flor de Dama, que era um monólogo, a Engenharia tem quatro personagens principais, cada um com um discurso muito diferente, uma história muito diferente. Como articular esses discursos, criar esses quatro personagens?

Silvero – O Engenharia era pra ser mais um solo meu também. Na verdade, eu teria que fazer todos os personagens e tal. E aí, depois eu fui vendo a concepção: “mas eu quero o espetáculo mais festivo, eu quero o espetáculo maior, grandioso”. Porque a Flor de Dama é um solo, mas ele é muito pequenininho. Eu não sei se vocês viram a Dama sozinha, fora do Cabaré: ela só precisa de uma mesa, uma cadeira, e ali acontece a coisa. Eu queria uma coisa maior, mais espetacular. Como eu tava trabalhando com os meninos no Cabaré, já tava trabalhando com eles há quase um ano, eles já tinham personagens prontos, criados, a Verônica, a Deydiane, a Yasmin e a Giselle, que sou eu. Então, eu falei: “Porra, já tenho personagens pré-criados!” E aí, era só pegar esses personagens e colocar em outras situações que não sejam só fazer show, mas colocá-las se prostituindo, sendo espancadas, querendo se bombar, conversando com o público sobre suas dores ou então brincando com o público, falando sobre sua vida, enfim. Eu disse: “Já que eu tenho esse grupo, já tenho essas pessoas formadas comigo, que acreditam nisso que eu comecei a acreditar em 2004, nada mais justo do que começar a trabalhar com elas e começar a construir algo com elas”. E aí, foi super bacana porque elas aceitaram na boa o trabalho e basicamente foi por causa disso: porque já estávamos trabalhando juntos, porque eu vi que eram pessoas que acreditavam no trabalho e que eu acho que só iriam engrandecer, na verdade, que poderiam dar uma dinamicidade muito maior pro espetáculo do que se fosse só um ator. Além disso, o espetáculo ainda tá em processo…

Denis – É, desde a época em que a gente estreou, que teve a pré-estréia (o espetáculo teve duas apresentações ainda em abril, no Theatro José de Alencar), e agora, que a gente tá em temporada, a cada apresentação, a gente volta pra sala de ensaio, a gente debate e vê: “Não, fica isso, não fica…”. Porque, a partir do momento que a gente tem a receptividade do público, que a gente percebe a energia, a gente vê o que fica e o que não fica. Porque é um processo teatral, que isso vai acontecendo em qualquer outro espetáculo.

Em relação especificamente ao Engenharia, quando o Silvero me chamou, ele falou: “Ó, Denis, tu vai fazer isso, é esse teu personagem…”. Ele deu a base, mas, em cima da base, a gente foi criando, foi construindo, foi vendo, lendo textos. Porque, do bebezinho, criou-se um homem. Então, desse homem, ainda vão se criar outras coisas em cima, as características. Por exemplo, a Deydiane faz a caricata, a Giselle já é um pouco caricata também, mas é mais popular, já a Verônica é bem classuda, a Yasmin é uma coisa mais teen… A gente diz que é a tailandesa (risos). Porque cada um tem a sua característica. Quando as pessoas olham, elas vêem que não é só aquele show que talvez elas estejam acostumadas a ver nas apresentações, com aquelas mesmas músicas, com aquele mesmo jeito. Não, tem um trabalho diferente nisso. E com esse trabalho, a gente quer também que falar pros transformistas, que eles participem, vejam que eles podem ir além, sabe? A gente fala deles, da vida deles.

Bruno – A Yasmin já se apresentava no Cabaré?

Diego Salvador – A Yasmin participou de um campeonato que teve do Cabaré da Dama, um concurso.

Jomar – A gente fez um novos talentos (risos).

Diego – Eu participei do segundo concurso que teve, no Cabaré. E eu acabei ganhando e ficando, conquistando a confiança do meu trabalho para com o Silvero. E eu acabei tendo a pesquisa sobre como escolher esse nome e acabei chegando no Yasmin Shirran. Denis – E também é aquela coisa assim: a Deydiane saiu do primeiro concurso do Cabaré da Dama. Foi uma coisa muito inusitada, o Silvero falou assim: “Denis, tu devia participar, tu devia fazer um show no Cabaré da Dama”. Mas eu não sabia que tinha um concurso (risos). E no dia eu não conseguia falar com ele, pra dizer: “Não, Silvero, eu vou”. Liguei pro Jomar, falei: “Jomar, eu vou fazer.” Não tinha peruca, não tinha nada. Tinha uma que um amigo meu me emprestou, aí eu fui criando umas coisas… Então, eu ganhei o primeiro concurso e depois foi a Yasmin e teve os outros concursos. Foi aí que eu entrei no Cabaré. Porque o Cabaré é mais aquela coisa: como eu trabalho em outros espetáculos, o Cabaré a gente se reveza nos shows de abertura. O Engenharia não, ele é um espetáculo que a gente pretende um dia viajar todo mundo, sabe? Porque tem muita gente que olha o espetáculo e fala: “Não é pra tá só aqui”. Eu fico muito apaixonado e, ao mesmo tempo, muito nervoso, meus cambitinhos começam a tremer (risos), porque é dormir pensando no espetáculo, acordar pensando no espetáculo.

Diego – E pra quem faz se torna realmente muito mágico, sabe? Eu venho pensando que não é só uma autorealização, é mais que isso. Vem uma energia que você às vezes nem explica quando você tá fazendo esse espetáculo. E isso eu pude perceber quando eu participei do concurso que teve, eu pude perceber que era uma coisa tão mágica, que eu acho que fez com que eu conquistasse e ficasse nesse trabalho, no Cabaré e agora no Engenharia.

Denis – O Silvero já tinha uma história de pesquisa e a gente também teve a nossa. O Engenharia a gente construiu até agora nesse formato, que vocês viram já. Pode chegar daqui há um ano e não ser o mesmo formato. Hoje já não é. O que você viu na quinta-feira, já não tem nada a ver com o que você vai ver hoje, sabe? E talvez quinta-feira que vem também já não seja. Ele vai ser sempre um processo de criação.

Diego – Até porque é um trabalho que permite isso, que realmente permite essas modificações, sabe?

Silvero – Eu tenho um interesse enorme de que a cada semana o público veja um espetáculo diferente. Que o público dessa quinta-feira, quando entrar em contato com o público da próxima, entre em desacordo do que aconteceu nas duas apresentações. ‘’Ah, eu vi essa cena’’, ‘’mas hoje essa cena não tinha’’. O objetivo é esse mesmo. Como é um espetáculo fragmentado e como todo o espetáculo é feito em cima de fatos reais, a gente tem uma possibilidade enorme de ficar mexendo, de ficar injetando e tirando coisas.

Bruno – Eu queria só tirar uma dúvida. Fico até com vergonha de perguntar, mas acho até legal que exista essa possível dúvida no público. O Silvero eu sei que sim, mas vocês todos já trabalhavam com teatro?

Denis – Já, eu faço teatro ha 8 anos.

Bruno – O Diego, então, que é o mais novo?

Silvero – É, faz um ano que ele tá no teatro, e é o primeiro espetáculo dele, quer dizer, o segundo (o primeiro foi o Cabaré).

Denis – E o Engenharia se torna pra mim mais ousado porque, ao mesmo tempo em que eu tenho a oportunidade de fazer a caricata (Deydiane, sua personagem), eu tenho a possibilidade de fazer uma quebra, de mostrar uma outra situação. É uma linha totalmente diferente do q eu já venho fazendo nos meus outros trabalhos. Eu trabalho mais com espetáculos de comédia, infantil, alguns adultos… E eu nunca fiz um solo. Nos meus oito anos de teatro, eu nunca fiz um solo. Eu tinha muito medo de fazer. Quando veio o Engenharia, foi um desafio de mostrar um solo, de um personagem que eu já tinha criado, de poder amadurecer, de fazer uma pesquisa mais intensa. É algo que vai… que vai mexendo aqui. Às vezes eu acordo e penso: eu acho que eles fazem o que eles querem, o que eles gostam.

Diego – Eu adoro minha vida! (Risos gerais).

Denis – Eu acordei assim… Depois da estréia, eu acordava às vezes e já começava a passar o texto. Hoje, mesmo, quando eu tava vindo, eu tava na topic falando o texto. E aí tinha um meninozinho olhando pra mim, depois a mãe dele também virou e aí eu me toquei que ele tava olhando pra mim! Aloca! Dei nem confiança.

Bruno – Diego, você disse que tá no teatro há pouco tempo, como é que é a tua história?

Diego – Com relação ao teatro, eu tô nesse processo, vai fazer acho que uns dois… uns três anos. Eu já tinha um conhecimento, mas nada tão profissional, como esse trabalho agora. E pude perceber a evolução, sabe? De trabalhar com o Silvero, de trabalhar com o Denis, de trabalhar com o Jomar e de trabalhar com outros atores que estão nesse espetáculo. Então é o tempo todo assim: informações por cima de informações, e você têm que colher, você tem que realmente estar pesquisando, estar trabalhando, pra que você não se enferruje.

Denis – E outra coisa, o Silvero até tava falando com a gente sobre isso recentemente. A gente conversava sobre homossexuais bem sucedidos. E tem uma amiga nossa, que eu até já trabalhei com ela que é a Layla sah e a Alicia Pietá (interpretados por Michel Kaiã e Bernardo Vitor, respectivamente) e eles vivem hoje disso, do trabalho do transformismo deles, que começou no teatro. E atuam muito bem porque eles tiveram uma base, porque o teatro deu uma base pra eles, de poder criar, e até a desenvoltura de comandar um show, de poder lidar com o público. O teatro também dá uma base muito disso pra muitos transformistas.

Silvero – E o espetáculo tem quebrado muitas barreiras. A gente faz o espetáculo pensando em uma técnica teatral, nenhum dos quatro é transformista, nenhum dos quatro é travesti. São todos atores e, de repente, a gente começa a ter convites de boites gays pra fazer shows, pra assumir final de semana nessas casas. E isso a gente acha muito bacana, porque acaba provando pra gente o reconhecimento da classe, o quanto elas se sentem bem representadas, o quanto elas nos consideram dignas no que estamos fazendo.

Bruno – Eu queria pedir que cada um falasse um pouco da história do nome do seu personagem, já que vocês mesmos que criaram. Imagino que seja um processo bem interessante, esse de se dar o próprio nome.

Silvero – A Gisele Almodóvar, no meu caso… A gente já tava com o Flor de Dama em cartaz, mas a personagem não tinha nome. No texto a gente chamava ela mesmo só de Dama. Aí eu tava falando com um amigo, que também é transformista, e ele me fez, do nada, duas perguntas: vem cá, me diz o que é que você gosta de fazer, duas coisas que você gosta muito. ‘’Ah, eu acho a Giselle linda e adoro os filmes Almodóvar’’. ‘’Uhm, mas me diz uma outra coisa!’’. ‘’Ah, eu gosto muito de perfume, o Dolce & Gabanna, vai’’. Aí ele disse: pois, então, pronto, já é teu nome: Gisele Dolce Almodóvar. Aí eu, ‘’é, até que eu gostei ’’ ‘Bom, você usa o nome, GIselle Almodóvar, mas quando pedirem o nome completo você dizer Gisele Dolce Almodóvar’’. E virou uma brincadeira bem divertida no cabaré, e foi muito bacana.

Denis – A Deydiane foi assim: eu tava assistindo aquela novela com um amigo,A favorita, e tinha aquela tal de Dedina, que apanhava do marido, e esse amigo adorava botar apelido em todo mundo. Aí ele: ei, Dedina! Detesto esse nome, não vem com isso não! Aí na semana seguinte, a gente foi assistir o filme da Piaf (Piaf!, de Fulano de tal). Eu queria tanto ver, a gente foi. Depois ele veio, ‘’ei, Deydiane Piaf’’. Eu: vá pra merda, não me chame de Deydiane Piaf não! Eu não gostava do nome, ‘’não, sai pra lá, que história é essa’’. E passou. Aí, quando o Silvero chamou pra fazer o Cabaré, eu pensei, que nome eu vou botar, pelo amor de Deus? Aí veio bem na hora, Dediane Piaf! E o Silvero perguntou, ‘’o que tem a ver’’? Deydiane porque eu acho que é um nome popular, que você consegue escutar uma mãe dizendo ‘’ Deydiane, menina, vem aqui!’’ . Porque eu vejo também um nome muito divertido. E Piaf pelo fato da Piaf ser uma diva, porque tem aquelas caricatas que tendem para um estilo quase Raimundinha, botam muita coisa, exageram, mas a Deydiane não, ela quer ser uma menina, uma Barbie, mas quando ela precisa, ela faz uma macacada. Aí ficou, Deydiane Piaf, um mito é um mito. O hino do amor, nhaê?

Silvero – Porque todas elas tem um bordão, na verdade.

Diego – A Yasmin Shirran veio de uma pesquisa, de um filme que eu assisti,Memórias de uma Gueixa, de onde eu tirei o Yasmin. E o Shirran foi de uma outra pesquisa, também desse universo das gueixas, dessa vez de um documentário que eu vi.

Denis – Ela tava assistindo era Dragon Ball, né? Risos.

Jomar – O meu foi muito engraçado porque, assim, quando a gente começou no Cabaré, eu lembro que eu nunca tinha feito nenhum trabalho de dublagem e aí já foi difícil escolher que música fazer. E um dia eu tava acabando de sair do meu francês e tal, e resolvi fazer algo da Piaf só mesmo pelo comodismo de saber falar aquilo que eu ia dublar. Aí, eu escolhi uma música dela, entrei sem peruca, só com um turbante… A primeira imagem da Verônica era muito anos 1920, me remetia a uma certa imagem de um cabaré anos 1920. Eu sempre gostei do nome Valentino, que me remete a esse tipo de cabaré, a esses bordeis daquele tempo. E Verônica porque, se eu tenho o Valentino, eu queria um nome de uma mulher brasileira, de uma mulher forte e tal e aí, eu peguei o nome da minha mãe! Risos. Ela, inclusive, é evangélica e tudo mais.

Bruno – E o que ela achou?

Jomar – Ela adorou! Risos. Aos poucos, ela foi se acostumando… Mas, enfim, eu disse: Verônica é um nome forte, é brasileiro e é o nome da minha mãe.

Denis – A gente tava brincando uma vez: “Vamos colocar o nome das nossas mães?” Aí eu: Marilena Piaf! Não! Risos gerais.

Engenharia Erótica: Fábrica de Travestis está em cartaz todas as quintas-feiras de maio, às 20h, no SESC Iracema (Rua Boris, 90. Próximo ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Mais informações: http://www.fabricadetravestis.com.br

Fortaleza Lado B

Lado_b_do_yuri_leonardo

Às vezes esqueço que essa cidade tem praia. O Yuri Leonardo, que tirou essa foto, é quem mais me lembra disso.

Nem peguei direito esse tempo, mas ainda lembro que os LPs, especialmente os singles, muitas vezes sofriam de múltipla personalidade: de um lado, os sucessos comerciais que tocavam na novela e nas rádios; do outro, faixas mais experimentais, viajantes, inovadoras. Duas faces do mesmo artista. Hoje, que Fortaleza completa 284 anos, acho que não há melhor metáfora pra expressar exatamente o que me faz amar essa cidade. Só que, ao invés de um lado B apenas, acho que vivemos muito mais nuances. Se duvidar Fortaleza tem até lado Z.

O lado A é o mais visível. Está nos outdoors, que anunciam as mesmas festas caras, com as mesmíssimas atrações – a única coisa que muda é a data. Está também nas Hilux com adesivos de “sou chicleteiro”, nos shopping centers assépticos, nos paredões de som, nas cercas elétricas, nos muros altos e no vestuário-anúncio, onde a marca da roupa chama mais a atenção do que quem a veste. Essa é a Fortaleza que não me atrai – provinciana ainda que viva nas pontes aéreas, homogênea em sua meia dúzia de sobrenomes conhecidos. Para o lado A, só ele existe. O que está fora dessa esfera é, no máximo, motivo pra querer ir embora.

O caos das outras Fortalezas é o que cativa de verdade. Nem tudo é lindo, nada é perfeito, mas é exatamente isso o que atiça os espíritos aventureiros a abraçar a cidade como sua, criticando-a, mas também agindo. É a Fortaleza dos movimentos pela democratização da comunicação, contra a homofobia, em defesa dos direitos humanos, pelos direitos das pessoas com deficiência, de combate à prostituição infantil; a Fortaleza da bicicletada, do transporte coletivo, da preservação do meio ambiente, dos patrimônios históricos, dos passeios no Centro; a Fortaleza dos poetas, dos pintores, dos malabaristas, dos grafiteiros, dos fotógrafos, dos atores, dos contistas, dos zineiros, dos músicos, dos performers, dos boêmios e dos estudantes. É a Fortaleza de quem ousa, de peito aberto.

É nessa Fortaleza que eu gosto de morar, descobrindo e redescobrindo gente que vale a pena a cada passo. Não acho que me enquadro totalmente em nenhum desses grupos, mas o todo me acolhe e me encanta. Essa diversidade faz com que eu me sinta em casa e alimenta a vontade de fazer minha pequena parte pra que a cidade esteja ainda mais bonita aos 285 anos.