Vontade de continuar

Duas vezes por semestre, todos os orientandos e orientandas da minha professora se reúnem para trocar ideias sobre o andamento da própria pesquisa. Normalmente gosto dessas tardes, que têm um clima cooperativo, sem rivalidades, várias críticas construtivas e, às vezes, uma cervejinha com todo mundo junto depois. No entanto, há alguns meses venho pensando com apreensão nesse encontro: está chegando a minha vez de apresentar novamente e bate o medo do meu progresso não ter sido tão significativo.

Minha última apresentação foi difícil: depois de passar um ano trabalhando na revisão bibliográfica e refinando meu projeto, ouvi críticas duras — porém justas — da minha orientadora. Apesar da minha sensação de estar bem encaminhada, ainda havia muito a definir antes de eu poder me considerar pronta pra pesquisa de fato (como me considerava antes da apresentação).

Mesmo assim, viajei pro Brasil pouco depois e conversei com o pessoal da Nigéria e do Na Rua, dois grupos que estiveram envolvidos com a cobertura independente dos protestos de 2013 e 2014 em Fortaleza. Fui contatando mais e mais gente através de cada entrevistado, que pacientemente me explicava como haviam sido as articulações entre pessoas que, antes dos protestos, se relacionavam de diversas maneiras: muitas se conheciam só de vista, outras já eram amigas desde há muito tempo, mas todas agora estavam ligadas por aquela experiência.

Além dos vários insights acadêmicos que essas entrevistas iniciais me deram, elas me encheram de esperança. Ali estão pessoas que buscam viver uma outra cidade, fazer um outro jornalismo, criar alternativas que as permitam ser verdadeiras consigo mesmas sem precisar partir (como eu precisei). Foi como um reencontro com meu eu da graduação, cheia de amor e descobertas por Fortaleza, a pele grossa pras dificuldades do dia-a-dia e o coração mole pros pequenos momentos de beleza e encontro na Cidade Solar. Um bom remédio contra o meu cinismo, contra a distância emocional que eu vinha sentindo em relação ao Brasil.

Hoje, relendo todas as anotações que já fiz no meu diário de pesquisa, iniciado há quase um ano, me peguei sorrindo a cada ideia maluca, relembrando a aflição dos questionamentos e, principalmente, sentindo orgulho do meu amadurecimento como pesquisadora ao longo desse tempo. Ainda há um longo caminho a ser trilhado, mas cada leitura, cada discussão com amigos e outros acadêmicos, cada entrevista e cada brainstorm é mais um passo na direção que vou traçando tão laboriosamente, uma direção que é só minha.

Terminei bem o mestrado e, por muito tempo, achei que simplesmente manter aquele nível era suficiente. Mas aprendi após muitas conversas com a minha orientadora e as primeiras revisões de artigos enviados para periódicos que preciso ir além, o nível de cobranças é muito mais alto e isso me assusta, mas também me inspira. O doutorado tem sido também uma lição de humildade: tenho reaprendido como pesquisar e a encontrar um equilíbrio entre cobranças externas e internas.

Doutorado é como se, aos poucos, os mais velhos fossem te deixando sentar na mesa dos adultos, mas ainda de olho se você sabe usar os talheres direito, te dizendo pra não falar de boca cheia… É um reconhecimento do seu amadurecimento, mas também de que você ainda não conhece todos os pormenores desse novo estágio. É preciso encarar críticas duras porém construtivas como oportunidades de crescer ainda mais, refinar o trabalho, não como um indício de que se deve desistir.

No fim desse dia de muitas retrospectivas, meu amigo Léo Custódio publicou uma citação que caiu como uma luva:

ganas de seguir

“Como escrever uma tese” – Umberto Eco

“Se vocês fizeram suas teses com gosto, vão ter vontade de continuar”, escreve Umberto Eco. E é assim que me sinto, com vontade de continuar neste incrível desafio.

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Routine-diving

Helsinki's rooftops (Débora Medeiros)

Helsinki’s rooftops (Débora Medeiros)

Why do I love traveling? To me, it has never really been about sightseeing. Though I eventually stumble upon the main tourist attractions, I rarely go to a place with a checklist of what to see, just like I almost never read the reviews before watching a movie. I like to arrive in a new city knowing just enough to guide my wanderings, but not enough to create unrealistic expectations. So, I usually pick up a map or a few brochures and go see whatever sounds interesting at the moment. It’s much easier to be pleasantly surprised this way.

What I love the most about traveling is the possibility of abandoning my routine  almost completely for a few days and trying to immerse myself in an everyday life that isn’t mine, deciphering other customs, seeing different faces, hearing the sound of another language. I love getting lost and finding my way again, sometimes taking the longest path, sometimes wandering into a café or a bookstore to pass time.

Traveling is remembering that there is much more out there than my quotidian worries and joys — and looking forward to coming back to them with fresh eyes.

Um conto de duas cidades

Imagem: divulgação

Imagem: divulgação

Com estreia lotada, Praia do Futuro, ambientado em Fortaleza e Berlim e dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, pode ser o terceiro filme brasileiro a ser premiado com o Urso de Ouro

De um dia para o outro, Aquaman some da vida de Speed Racer. Ayrton (Jesuíta Barbosa), o Speed, tem de lidar com a ausência súbita do irmão mais velho, o salva-vidas Donato (Wagner Moura), cuja coragem em enfrentar o mar o transformava em um super-herói a seus olhos de menino. No momento em que os dois se reencontram, alguns anos mais tarde, em Berlim, Ayrton pergunta em alemão: “Irmão, você sentiu minha falta?”, antes de avançar sobre Donato aos socos e pontapés.

Para o diretor Karim Aïnouz (O Céu de Suely/2006, Madame Satã/2002, O Abismo Prateado/2013), a separação e o reencontro dos dois irmãos reflete a história de Berlim, uma cidade que, quando o muro finalmente caiu, vivenciou um longo processo de reconciliação até que seus dois lados se amassem e se reconhecessem outra vez.

Berlim pareceu agradecer a homenagem do diretor que a habita há alguns anos. Juntamente com sua equipe, Karim foi recebido com tapete vermelho e noite de gala, na última terça-feira (11), no Berlinale Palast, onde são exibidos os filmes da mostra competitiva da Berlinale (Festival Internacional de Cinema de Berlim). Em meio à plateia que lotava a sala de exibição, se encontrava até mesmo o prefeito Klaus Wowereit, acompanhado do seu parceiro Jörn Kubicki. Praia do Futuro está na disputa pelo Urso de Ouro do festival, que acaba hoje. Esta poderá ser a terceira estatueta para um filme brasileiro, após Tropa de Elite, em 2008, e Central do Brasil, em 1998.

No entanto, esta não é apenas uma história que une duas das cidades que marcam a vida do diretor. A co-produção entre Brasil e Alemanha é um filme sobre coragem, sobre correr riscos. É também um filme sobre os heróis pessoais que todos nós temos e o que acontece quando a decepção de vê-los também humanos nos obriga a crescer.

Dividido em três partes, o filme parece detalhar os três momentos que marcam o processo de ir viver em outra cidade que não aquela onde se nasceu. Na primeira parte, O Abraço do Afogado, acompanhamos o cotidiano de Donato como salva-vidas na Praia do Futuro e seu primeiro contato com o alemão Konrad (Clemens Schick), por quem se apaixona, indo então visitá-lo em Berlim. É quando começa a segunda parte, Um Herói Partido ao Meio. Impossível não se identificar com a sensação de estranhamento e deslumbre diante das pequenas coisas do novo cotidiano, bem como com a hesitação de Donato quanto a iniciar uma nova vida ali, tão longe de tudo o que ele conhece. Por fim, o brasileiro resolve dar esse salto no escuro.

A terceira parte, Um Fantasma Que Fala Alemão, mostra Donato já adaptado à nova vida, com casa e emprego, numa rotina que une traços distantes de Fortaleza e Berlim. É então que Ayrton ressurge, a lembrá-lo que sua decisão de permanecer em Berlim sem dar notícias teve consequências com as quais ele não se sente pronto para lidar.

No bate-papo com o público após a exibição, Wagner Moura destacou a decisão de Donato de dar as costas ao passado como o elemento mais doloroso do filme para ele, pela forma como essa ruptura afeta Ayrton. “Mas você não pode falar de coragem sem falar também do medo. E esse é um defeito trágico do meu personagem. Não se pode fugir do passado para sempre,” disse o ator.

Praia do Futuro traz alguns elementos recorrentes na obra de Karim Aïnouz, como a trilha sonora que se incorpora à narrativa de maneira natural. Mas também traz diferenças, entre elas a predominância de personagens masculinos. Em outros filmes do diretor, como O Céu de Suely e O Abismo Prateado, as mulheres estão no centro da história. Ao ser perguntado sobre como ele imaginava que o público brasileiro reagiria a uma história de amor entre dois homens, Karim lembrou a contradição que é o Brasil possuir a maior Parada Gay do mundo e o mais alto índice de assassinatos motivados por homofobia. “Espero que o filme contribua para que avancemos nesse assunto, nos afastando do preconceito”.

Outra diferença em relação ao restante da obra do diretor são as imagens filmadas em planos mais abertos, inundando a sala de exibição com as cores quentes e o mar de Fortaleza e com o céu cinza e as construções de Berlim. São imagens permeadas de carinho, típico de alguém que as tem sempre convivendo dentro de si. No fim das contas, somos todos meio partidos ao meio.

Matéria publicada originalmente na edição de 16 de fevereiro de 2014 do jornal O POVO, também disponível na versão online.

2 years of here and there

It was just another summer night, as the bus took me across town and my mp3player whispered songs in my ears. Then suddenly Rush’s Fly by Night  started playing and I was struck with the realization that the day that marked the two years since my arrival in Germany had passed more than a month ago and I hadn’t even noticed. Two whole years since this song played in my head while the plane took off and I cast one last glance at my hometown.

Quiet and pensive
My thoughts apprehensive
The hours drift away
Leaving my homeland
Playing a lone hand
My life begins today

The lyrics portrayed so perfectly how I was feeling back then: the impulse to leave the suffocating – though affectionate – familiarity of a city that watched me grow up, and venture into a place where no one knew me – simply put, Start a new chapter, find what I’m after, it’s changing every day.

Days, weeks, months passed me by. And even though my life is far from glamourous – my hours are mostly spent between chores, academic reading and writing and the occasional stroll through my Berliner suburbia -, so much has happened in these two years. Sometimes I’m amazed by how things change fast and almost effortlessly, when we find ourselves in a new country or city, starting everything from scratch.

My four months in Mannheim almost seem like a blur, a distant time when I not even knew which university – if any – would accept me. Its small town dynamics were so easy to understand, like a rehearsal of what was yet to come here in Berlin. Only the good friends I made there remain crystal clear in my mind and, whenever we meet, I feel transported back to those days.

Berlin feels like dozens of cities in one and, mixed together with memories scattered around all of them, these cities feel like home now. It is from here that I plan my adventures to other places around the globe, the brief yet essential returns to Fortaleza and my next steps, big or small.

I love arriving in this city. My favorite route is from Tegel: Moabit welcomes me quietly yet not tidily, then Tiergarten shows off with its embassies, Schloss Bellevue and the Siegessäule, Schöneberg says hello with its colorful suburban flair, until finally the streets leading to my apartment, in all their glorious plainness, fill me with warmth. By then I’m already listing what I need to buy at the supermarket around the corner and deciding when I’m going to unpack.

It took me long to feel that my life is mostly here now. I guess this only really dawned on me a couple of months ago. The thing about leaving home in the age of social media is that it can sometimes feel like you never left at all. Your body is in this new place, but your mind and heart remain firmly rooted to what they knew before.  If you’re not careful, the Internet might become your Mirror of Erised: it is amazing to be able to always chat with that beloved friend who lives across the ocean, but at the end of the day you can’t go out for a beer with them. Slowly, I learned how to welcome new people into my life without neglecting the ones that have always been there for me, no matter the distance.

I never regretted my decision to leave. I don’t know if one day Berlin will wake in me the Fly by Night  kind of feelings Fortaleza did. I just hope I can always find the balance between the places – and people – that changed my life in the past and the place I’m living in the present, finding room for all of them in my heart.