Kerouac e o que vale a pena

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Jack Kerouac e Neal Cassidy, Sal Paradise e Dean Moriarty. (Divulgação)

Existem momentos perfeitos pra gente ouvir uma banda, ver um filme, acompanhar um seriado, ler um livro. É como se nossas vidas entrassem em sincronia com aquela obra de arte específica e ela pudesse ser compreendida de um modo único, impossível de replicar alguns anos atrás ou adiante. A vida se entrelaça à criação.

Há uma semana, eu vasculhava o armário de livros dos meus pais, à procura de bibliografia para o mestrado: Durkheim, Weber, os clássicos que eles viram na graduação e já devem ter esquecido – pragmatismo cotidiano comendo as teorias da juventude em suas cabeças. Gosto de chafurdar na poeira desse armário, ver o que eles liam quando tinham a minha idade, no que somos ou éramos parecidos. Entre um Vargas Llosa que já li e um manual intitulado A auto-estima do seu filho, Jack Kerouac acenou pra mim, com seu grande clássico On the Road, numa edição de 1984, assinada possessivamente pelo meu pai e situada no espaço e no tempo pelos rabiscos “Natal, 30/04/84”. Meus pais se casaram no final daquele ano e vieram morar em outra cidade. Não deixava de ser um chamado da estrada.

Sempre tive uma vaga curiosidade pra ler esse livro, mas nunca foi o suficiente pra comprá-lo, ao esbarrar com ele em alguma livraria. Algo naquela tarde modorrenta de terça-feira me fez esquecer as leituras acadêmicas e mergulhar finalmente nas viagens do maior dos beatniks. E o momento não poderia ser melhor. On the Road ecoa meu presente e meu futuro como nenhuma outra obra que caiu nas minhas mãos este ano. Cada linha repercute conversas, reflexões, sonhos, planos. Como quando Jack coloca em palavras meus próximos anos, os próximos anos de tantas gerações de jovens nessa cidade: “(…) pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal”. Impossível não fechar os olhos e adivinhar as vidas dos mais queridos, seus planos virando realidade aqui ou em outro lugar e os reencontros ocasionais, migratórios.

Num ano em que crescer significa emprego, responsabilidades de profissional, projetos independentes e escolhas de prioridades, On the Road parece dizer que a vida não acabou, essas são novas aventuras e um mundo de possibilidades e liberdade está só começando. No livro, viajar é apenas uma etapa extremamente enriquecedora do ciclo de cansaço e renovação que é cair na estrada e esquecer que se tem uma casa pra onde voltar, até que o caminho de volta se torne a direção mais natural outra vez.

Está tudo lá: o salto no escuro que é se lançar rumo a uma cidade desconhecida, a familiaridade que vem com o contato com as pessoas que moram ali, a saturação que leva a partir e começar o ciclo todo de novo. Jack também estabelece o equilíbrio entre viajar sozinho, absorvendo tudo e todos que encontramos nos acasos da estrada, e cumprir a jornada na companhia de um velho amigo. Ver Sal ver o mundo pelos olhos do seu amigo desvairado Dean é uma das sacadas mais brilhantes do livro. Fico pensando nas poucas pessoas que poderiam ser “meus Deans”, tenho bem fixados os rostos desse punhado de malucos adoráveis, que achariam perfeitamente lógico esse tipo de aventura, encarada com desconfiança por 90% dos que nos cercam. Os lugares que poderíamos descobrir juntos, as histórias que teríamos pra contar…

A solidão de um vagabundo nas highways americanas do fim dos anos 1940 e começo dos 1950 parece falar de um tempo de inocência inimaginável nos EUA das séries de serial killers e dos horrores impronunciáveis. Jack capturou o espírito de sua época e, como certas passagens do livro explicitam, tinha plena consciência disso. Incríveis são as descrições dos shows de jazz em inferninhos do oeste, em que a música pulsa nas letras impressas e soa tão forte na imaginação que quase se pode ouvi-la. Diante de notas tão transcendentais ou das paisagens sublimes vistas de relance, tudo ganha outra dimensão. Diante do que se pode viver, pra que perder tempo, se preocupando com mesquinharias? É o que Dean parece resumir, descrevendo para Sal um grupo com quem eles pegaram carona:

Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos e puramente angustiados e angustiantes, suas mentes jamais descansam, não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim.

Amigos, a vida é tão mais que isso. Caiam nas estradas dos seus corações.

Pedro Bandeira: imaginação é tecnologia de ponta

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O doce Pedro Bandeira e seu bigode, indissociáveis no imaginário dos fãs. (Divulgação)

Dez entre dez jovens adultos que hoje lêem por gosto têm Pedro Bandeira entre suas memórias de infância. Quem nunca quis ser um dos Karas? Quem nunca torceu pra Isabel ficar com o Fernando, em A Marca de uma Lágrima? Quem nunca se divertiu com as sátiras bem humoradas de O Fantástico Mistério de Feiurinha?

Tive a oportunidade de conhecer Pedro Bandeira há muitos anos, em uma Bienal Internacional do Livro, aqui em Fortaleza. Ele autografou meu exemplar de A Marca de uma Lágrima e prometeu ler alguns dos meus primeiros contos, que lhe entreguei encadernados junto com uma cartinha. Pra vocês terem ideia do tempo que faz, a foto que tirei com ele ainda foi na minha velha câmera analógica! Mas Pedro já era moderno naquele tempo e, algumas semanas mais tarde, me surpreendeu com um e-mail carinhoso, dando sua opinião sobre os contos.

Pedro Bandeira volta à cidade neste ano para duas palestras no dia 17 de abril, na Bienal Internacional do Livro. Aproveitei a oportunidade para, por e-mail, puxar conversa com o escritor sobre os seus tempos de jornalista, o 6o livro dos Karas e as novas tecnologias.

Antes de se dedicar à literatura, você trabalhou com teatro e como jornalista. O que você levou dessas experiências para a sua atividade como escritor?
Pedro Bandeira: Sempre trabalhei produzindo textos, desde a adolescência. E isso, é claro, preparou-me para escrever qualquer coisa, não é? Quanto ao teatro… Não sei. Desde muito pequeno fui ator e só abandonei o profissionalismo pelo fato de esta profissão pagar muito mal. Mas, ainda hoje, volto a ser ator toda vez que dou conferências em palcos com plateias de até mais de mil professores.

Qual foi a matéria que você mais gostou de fazer, nos seus tempos de Última Hora?
Pedro: Isso foi há muito tempo. De lá saí por causa do golpe militar. Era um jovem jornalista, estudante de Ciências Sociais e ator profissional à noite. Como jovem repórter, não me lembro de ter feito qualquer matéria memorável. Logo em seguida, trabalhei em revistas de engenharia (sem entender nada do que fazia) e em uma editora de livros, esta sim uma experiência rica, onde pude fazer um jornal político chamado Jornal da Senzala, entrevistando grandes brasileiros como Plínio Marcos, Caio Prado Júnior e muitos outros. Foi nessa editora que, como editor-chefe e para meu orgulho, publiquei pela primeira vez livros de Marcos Rey e de Plínio Marcos.

Quando você percebeu que tinha vocação para escrever livros para o público infanto-juvenil?
Pedro: Pretendo perceber isto na semana que vem.

A Droga da Obediência, primeiro livro da série dos Karas, é de 1984. Desde então, a realidade dos jovens mudou bastante, mas os livros continuam fazendo sucesso, geração após geração. A que você atribui essa permanência?
Pedro: A realidade mudou? Progresso? Tecnologia? Violência? Drogas? Isso não interessa à minha Literatura. Nela eu trato das emoções humanas, e isso não muda nunca! Com Internet, com celulares, ou iPods, os adolescentes continuarão sentindo medo, esperança, paixão, raiva, ciúme, terão dúvidas, como sempre e para sempre.

Você já mencionou, em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, que estava reescrevendo a 6a aventura dos Karas, porque percebeu que a primeira versão já estava desatualizada antes mesmo de ser publicada. A Internet e os avanços tecnológicos, tão presentes no cotidiano da juventude de hoje, dificultam escrever para ela?
Pedro: Está difícil, muito difícil. Meus personagens “vivem” numa época antes do computador pessoal, do celular, da Internet, dos e-mails. Certa vez redigi uma história que se baseava em tecnologia, e que iria chamar-se A droga virtual. Mas, antes de o livro ser impresso, ele  já tinha engolido pelo progresso das tecnologias. Assim, este livro foi para o lixo e de lá jamais sairá.

Como o autor deve lidar com esses elementos? É possível incluí-los na trama, sem que ela fique datada?
Pedro: No meu caso (não posso falar pelos outros), eu evito que as histórias tenham base em tecnologias, para que meu livro não fique datado. Veja você o caso dos grandes autores de ficção científica do século XX – praticamente todos os seus livros não fazem mais sentido; nenhum deles (nem Clarke, nem Asimov) foi sequer capaz de prever o computador pessoal (todos achavam que os computadores se tornariam monstros enormes, pois ninguém antecipou a invenção do ship), nem a Internet, nem o Google, nem sequer o celular! Por isso, é capaz de meus livros durarem bastante. Alguns até já se tornaram clássicos.

Você já mencionou em entrevistas que checa sempre seus e-mails e procura responder a todas as mensagens dos fãs. Já pensou em ampliar esse contato com os internautas em um blog, como fez José Saramago, por exemplo?
Pedro: Estamos na iminência da criação de um site especial, com tudo que isso tem direito. Será lançado em poucos meses.

E, já que falamos da 6a aventura dos Karas, antecipo aqui uma pergunta que com certeza vai ser feita durante a Bienal: já há uma data de lançamento definida para o livro?
Pedro: Como antecipar datas de um livro que ainda nem sei como será?

Pedro Bandeira estará na IX Bienal Internacional do Livro do Ceará em dois eventos, ambos no dia 17 de abril:

Encontro com o Escritor, das 16h30 às 17h45, no Salão O Quinze (Auditório Principal – Bloco D), com mediação do esritor Raymundo Netto.
 
Conversa com Pedro Bandeira (Brasil/SP), das 15h às 16h, na Arena Infantil O Menino Mágico (Bloco F Superior).

Heinrich Heine: o poeta do banzo

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Estátua e grafite de Heinrich Heine na Universidade de Düsseldorf, rebatizada como Universidade Heinrich Heine em 1988. (Débora Medeiros)

Comprei muitos livros na Alemanha, mas só comecei a ler um enquanto estava lá: Deutschland. Ein Wintermärchen ou, em tradução livre, Alemanha. Um Conto de Fadas Invernal. Formado por uma série de poemas, o livro foi publicado em 1844 por Heinrich Heine, depois de uma viagem pelo país.

O nome do poeta é quase onipresente em Düsseldorf; foi lá que ele nasceu, apesar de ter se mudado logo para Hamburgo. A Universidade se chama Heinrich Heine, os professores de alemão citam sua obra, os guias turísticos sugerem uma visita ao Heinrich Heine Institut e a casa onde ele nasceu continua de pé.

 

Nem sempre foi assim: enquanto era vivo, Heine foi perseguido pela censura no próprio país e, por isso, se exilou na França. Voltou poucas vezes à Alemanha. Deutschland. Ein Wintermärchen é fruto de um desses retornos, em 1843, quando o poeta tirou algumas semanas para visitar sua mãe e seu editor, Julius Campe. O tom é agridoce, como o de quem volta pra casa e subitamente se lembra dos motivos para deixá-la.

 

Acabei não tendo tempo pra ler o livro todo ainda na Alemanha e só hoje consegui terminá-lo. Ler um pedaço lá outro cá acabou sendo uma experiência única. Provavelmente não era a intenção do poeta, mas, mais do que as críticas à situação política alemã (em pleno domínio da Prússia), sobreviveu a perspectiva única do “viajante na própria pátria”, aquele que olha pra tudo com um misto de espanto e familiaridade, por ter passado tanto tempo fora, porém nunca esquecido a vida na terra natal.

 

Nunca passei mais de dois meses longe de casa, mas penso em fazer isso em breve. Por isso, mergulhar nas impressões de Heine foi precioso pra mim. Ao comprar o livro, esperava uma dúzia de versos bonitos sobre as cidades alemãs. Encontrei, ao invés disso, passagens que me lembraram do conforto de ouvir a língua materna, rever lugares cheios de significados pessoais, reconhecer costumes, encontrar os amigos que ficaram e sentir-se em casa, apesar dos pesares. Todas essas sensações foram confirmadas quando cheguei em Fortaleza.

 

Heine cresceu como homem e como artista quando foi morar em Paris. Conheceu Karl Marx, ajudou a criar o formato atual dos cadernos de cultura e contribuiu para reaproximar a Alemanha e a França, em meio a uma rivalidade que se estendia há décadas. Ainda assim, não resistiu à vontade de percorrer novamente a terra natal, mesmo durante os rigores do inverno. Ele explica em versos por quê:

 

Ansiei até pelos lugares,
Ich sehnte mich nach den Plätzen sogar,
Por cada estação da Paixão,
Nach jenen Leidensstationen,
Onde carreguei a cruz da minha juventude
Wo ich geschleppt das Jugendkreuz
E a minha coroa de espinhos.
Und meine Dornenkronen.

 

Como eu disse, agridoce. Que nem a saudade de casa – que a gente também conhece como banzo ou, na língua do poeta, Heimweh.

 

PS: Uma curiosidade sobre Heinrich Heine é que ele era muito admirado por escritores brasileiros como Machado de Assis, Raul Pompéia e Manuel Bandeira. Um poema dele serviu de inspiração para O Navio Negreiro, o mais famoso poema abolicionista de todos, escrito por Castro Alves.

 

PPS: Quem lê em alemão encontra Deutschland. Ein Wintermärchen pra baixar aqui.