2 years of here and there

It was just another summer night, as the bus took me across town and my mp3player whispered songs in my ears. Then suddenly Rush’s Fly by Night  started playing and I was struck with the realization that the day that marked the two years since my arrival in Germany had passed more than a month ago and I hadn’t even noticed. Two whole years since this song played in my head while the plane took off and I cast one last glance at my hometown.

Quiet and pensive
My thoughts apprehensive
The hours drift away
Leaving my homeland
Playing a lone hand
My life begins today

The lyrics portrayed so perfectly how I was feeling back then: the impulse to leave the suffocating – though affectionate – familiarity of a city that watched me grow up, and venture into a place where no one knew me – simply put, Start a new chapter, find what I’m after, it’s changing every day.

Days, weeks, months passed me by. And even though my life is far from glamourous – my hours are mostly spent between chores, academic reading and writing and the occasional stroll through my Berliner suburbia -, so much has happened in these two years. Sometimes I’m amazed by how things change fast and almost effortlessly, when we find ourselves in a new country or city, starting everything from scratch.

My four months in Mannheim almost seem like a blur, a distant time when I not even knew which university – if any – would accept me. Its small town dynamics were so easy to understand, like a rehearsal of what was yet to come here in Berlin. Only the good friends I made there remain crystal clear in my mind and, whenever we meet, I feel transported back to those days.

Berlin feels like dozens of cities in one and, mixed together with memories scattered around all of them, these cities feel like home now. It is from here that I plan my adventures to other places around the globe, the brief yet essential returns to Fortaleza and my next steps, big or small.

I love arriving in this city. My favorite route is from Tegel: Moabit welcomes me quietly yet not tidily, then Tiergarten shows off with its embassies, Schloss Bellevue and the Siegessäule, Schöneberg says hello with its colorful suburban flair, until finally the streets leading to my apartment, in all their glorious plainness, fill me with warmth. By then I’m already listing what I need to buy at the supermarket around the corner and deciding when I’m going to unpack.

It took me long to feel that my life is mostly here now. I guess this only really dawned on me a couple of months ago. The thing about leaving home in the age of social media is that it can sometimes feel like you never left at all. Your body is in this new place, but your mind and heart remain firmly rooted to what they knew before.  If you’re not careful, the Internet might become your Mirror of Erised: it is amazing to be able to always chat with that beloved friend who lives across the ocean, but at the end of the day you can’t go out for a beer with them. Slowly, I learned how to welcome new people into my life without neglecting the ones that have always been there for me, no matter the distance.

I never regretted my decision to leave. I don’t know if one day Berlin will wake in me the Fly by Night  kind of feelings Fortaleza did. I just hope I can always find the balance between the places – and people – that changed my life in the past and the place I’m living in the present, finding room for all of them in my heart.

Memórias musicais

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(Divulgação)
Como é que alguém que não gosta de música faz pra se lembrar das coisas? É o que indaga Queimado, um dos protagonistas do documentário As Canções (2011), de Eduardo Coutinho. Sua história é uma das mais bonitas entre as tecidas ao longo dos cerca de 90 minutos do documentário, que preencheu minha fria noite berlinense com o calor de melodias e memórias intimamente entrelaçadas.

Quando vi que o filme passaria por aqui, soube que tinha de ir assistir. Desde Edifício Master (2002), tenho uma certeza: os documentários de Eduardo Coutinho são a realização cinematográfica do sonho de todo jornalista que entrou nessa profissão para ouvir as histórias das pessoas e (re-)apresentá-las com toda a sensibilidade que elas merecem.

Talkin’ about my generation

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Hanover, 25 de setembro de 2012: Gaga em sua entrada triunfal (Débora Medeiros)

Gaga adentrou o palco em grande estilo: em meio a um cortejo de dançarinos portando estandartes, ela vinha montada num cavalo negro, o rosto encoberto por uma armadura repleta de cristais (provavelmente Swarovski). É a auto-confiança de quem sabe que é quase impossível alguém sair do seu show sem virar fã. Eu, que sempre me diverti com as músicas e segui sua carreira com curiosidade, certamente saí de lá também cheia de admiração.

Vê-la ao vivo é ver uma síntese da minha geração. Lembro que, quando conheci seu trabalho, não foram os figurinos estranhos ou os clips mirabolantes que mais me espantaram, mas o fato de ela ser apenas dois anos mais velha do que eu. É sempre uma sensação engraçada, perceber que alguém que viveu a infância na mesma época que você está por aí, fazendo coisas de impacto mundial em suas áreas de atuação (me senti da mesma maneira quando descobri que o Sebastian Vettel, bicampeão de Fórmula 1, era de 1987).

No Born This Way Ball, que vi ontem em Hanover, tudo – desde o cenário grandioso até a miríade de figurinos, músicos e dançarinos – está ali para servir à imaginação daquela menina ítalo-americana, que começou a tocar piano aos quatro anos de idade e sempre compôs as próprias músicas. Músicas essas que podem soar bobinhas, mas que falam diretamente àqueles que vieram ao mundo no fim dos anos 1980 ou começo dos 1990. São letras que pregam o amor-próprio (Born This Way é o melhor exemplo – e sensacional de se cantar junto), tecem contos sobre os nossos tempos midiáticos (Paparazzi), expressam uma religiosidade livre de dogmas e bem-humorada (como não amar Black Jesus?) e defendem uma sexualidade desencanada (LoveGame) e uma postura independente e forte nos relacionamentos amorosos (Telephone).

Fico pensando quantas neuras e preconceitos já seriam coisa do passado se Lady Gaga tivesse existido há uns trinta anos. No entanto, só alguém que nasceu na virada da vida analógica para a atual simbiose online-offline poderia ter uma postura tão acessível e sem deslumbres em relação à indústria do entretenimento. Somos a geração da transparência e dos nichos, dos que transformam a própria vida numa experiência multimídia e global, se unindo em torno do direito de viver abertamente da maneira que cada um quiser. Como alguém que atualiza pessoalmente as próprias mídias sociais, no palco, ela bate papo com um público de milhares de pessoas: reconhece fãs assíduos na platéia, conta histórias pessoais, dá bronca naqueles que não se deixam levar pela apresentação (os alemães são conhecidos por assistirem aos shows impassíveis nas arquibancadas) e escancara o esforço por trás de toda aquela pirotecnia (“Eu acordo todos os dias às 5h da manhã para poder trazer isso aqui pra vocês”).

Pode até ser que a obra dela não seja tão provocativa quanto a da Madonna de algumas décadas atrás. No entanto, ao descer do pedestal no meio de um show, Lady Gaga revoluciona a vida dos seus fãs de maneira muito mais direta: ela incentiva o amor-próprio e a auto-expressão (Gaga fundou recentemente a Born This Way Foundation para combater o bullying nas escolas e outros tipos de discriminação), abraça causas como as do movimento LGBT por igualdade de direitos e combate leis retrógradas como as medidas anti-imigração nos EUA (a mais famosa delas é a Arizona SB 1070).

Parece ironia do destino, mas a máxima “just be yourself”, tão repisada na cultura pop americana, encontrou sua melhor expressão em uma artista que se transformou da cabeça aos pés para ser quem sempre quis.

Odes ao domingo

Se pararmos pra pensar, domingo é o único dia em que temos tempo pra fazer exatamente isso: parar pra pensar. Talvez por isso ninguém se sinta completamente bem num domingo. Pra maioria das pessoas, não há trabalho, aulas, obrigações; domingo é só a véspera de tudo isso. As ruas estão vazias e sair de casa é, por si só, um movimento que parece desafiar a Lei da Gravidade.

Domingo é o dia livre por excelência, enfim. E ninguém sabe o que fazer com essa liberdade. Dá remorso simplesmente existir. E esse remorso lembra outros, que enterramos sob os afazeres do dia-a-dia. A vida inteira pode ser revisada numa única tarde de domingo: as oportunidades perdidas, os planos que ninguém sabe se vão dar certo, os afetos, os problemas.

Passei a gostar mais dos domingos quando aceitei seu caráter único. Coincidência ou não, muitas das minhas músicas favoritas falam desse dia, ou melhor, da multiplicidade de dias que podem caber num domingo, dependendo das combinações de sentimentos e circunstâncias.

Sunday Morning Comin’ Down – Johnny Cash

A descrição da vida se desenrolando preguiçosamente na vizinhança – missa, crianças brincando na rua, o cheiro de comida caseira – em contraste com o caos inerente a cada gesto do narrador é a tradução dos domingos mais simples, desesperadores e belos que há, quando a liberdade do dia se manifesta em uma sensibilidade que nos faz perceber o quanto a vida é bonita e irreversível até nas coisas mais bobas. “’Cause there’s something in a Sunday/That makes a body feel alone”

Domingo no Parque – Gilberto Gil e Os Mutantes

Eu adorava ouvir essa música quando era criança. Até hoje tenho um fraco por letras que contam histórias, e as metáforas do Gil nessa canção são lindas, caleidoscópicas. Eu ficava horas imaginando o José, o João e a Juliana… Só muito mais tarde fui perceber que essa música fala de um domingo-catástrofe, de uma tragédia que provavelmente não teria acontecido numa segunda-feira ou num sábado festivo. No redemoinho de sentimentos conflitantes que o domingo traz, o pobre José achou que nunca teria a Juliana, só porque ela resolveu curtir a roda-gigante com o João.

Tell me on a Sunday – Michael Crawford

Uma das músicas mais singelas sobre o fim (anunciado) de um relacionamento. É um pedido final, que transparece o amor que ainda não acabou. Na verdade, Tell me on a Sunday é o nome de um dos musicais menos conhecidos do Andrew Lloyd Webber e trata não de um, mas de vários rompimentos. É a história de uma moça inglesa idealista que chega a Nova York e vive uma série de relacionamentos, que sempre terminam quando ela percebe que está traindo a si mesma e se tornando justamente aquilo que prometera não ser ao ir pros Estados Unidos. Terminar um namoro no domingo, quando revemos o que somos e o que deixamos de ser, faz todo o sentido nesse contexto.

Domingo – Titãs

Só de falar no Programa Sílvio Santos, os Titãs abrasileiram perfeitamente o marasmo do domingo e despertam memórias em qualquer um que já desbravou a selva televisiva desse dia, seja por falta de assunto com os parentes que vieram pro almoço, por tédio ou – será possível? – gosto. O mal-estar em não saber o que fazer com o dia é tanto, que até a segunda-feira é preferível.

Sunday Bloody Sunday – U2

O clássico do U2 relembra o dia 30 de janeiro de 1972, quando 14 manifestantes foram mortos pelo Exército Britânico em Derry, Irlanda do Norte. O episódio, marcado pela truculência contra uma passeata pacífica, fortaleceu as fileiras do Exército Republicano Irlandês (IRA), desembocando em outras explosões de violência ao longo das décadas seguintes. É um marco que continua dolorosamente atual e ganha força, quando soa em um domingo distante quase quarenta anos daquele dia fatídico. Serve como um lembrete de tudo de importante que está acontecendo, enquanto perdemos tempo agigantando problemas insignificantes.

Wort zum Sonntag – Die Toten Hosen

Batizado com uma alusão a programas religiosos da TV alemã (em tradução livre, Wort zum Sonntag pode ser lido como Palavra Dominical), essa música tem mesmo muito de pregação. Ela virou um hino do punk rock, com uma homenagem ao guitarrista Johnny Thunders, do New York Dolls, e fala de como o passado se faz presente, mesmo com o correr do tempo. Um tapa sempre bem-vindo na cara do saudosismo vazio, especialmente no domingo.

Essas são apenas algumas escolhas bem pessoais, tenho consciência que deixei vários clássicos de fora. O fato é que eu também gostaria de ouvir as músicas que significam domingo pra você que me lê.

Bênçãos

Numa noite chuvosa de quinta-feira, dois poetas da vida confirmam o que eu já suspeitava:

Belchior – Antes do Fim

Quero desejar, antes do fim,
pra mim e os meus amigos,
muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens
e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais

Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo:
o canto foi aprovado
e Deus é seu amigo
Não tome cuidado
Não tome cuidado comigo,
que eu não sou perigoso:
– Viver é que é o grande perigo

Bob Dylan – Forever Young

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you

May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you

May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift

May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young

Belchior e Bob Dylan não podem estar errados. É por essas e por outras que quero ver o mundo sempre com olhos jovens. Guio as escolhas presentes, pensando nesse futuro.

May I stay forever young?

Balões de Diálogo com a Banda Desenhada

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Foto: Thaís Martins

Surgida em 2009, a Banda Desenhada também vem sendo conhecida como “a banda nova da Alinne e do Igor”. Isso porque a carreira musical da jornalista Alinne Rodrigues e do publicitário Igor Miná já vem de bem antes, com a Telerama,  banda fundada em 2005 que se firmou na cena independente cearense ao longo dos anos.

Enquanto arrumam as malas para tocar pela segunda vez no festival americano South by Southwest (SXSW), o casal, que está noivo desde o ano passado, encontrou um tempinho para fazer a estreia cearense da Banda Desenhada nesta quarta (3), às 20h, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com entrada gratuita.

Em entrevista por e-mail, Alinne antecipa um pouco do que o público pode esperar do show, além de revisar a trajetória da Telerama e contar os planos para 2010.

“Banda desenhada” é o como os portugueses chamam as histórias em quadrinhos. De que forma elementos da cultura pop/geek, como as HQs, influenciam a banda?
Alinne Rodrigues: Na leveza ao tratar de qualquer assunto. A canção pop de três minutos é como uma tirinha diária: ainda que breve e repetitiva, de vez em quando atinge você em cheio (essa é do Igor, redator publicitário que condensa ideias em frases geniais).

Antes de começar a Banda Desenhada, você e o Igor fundaram a Telerama, em 2005. A banda viajou pelo Brasil e pros EUA, lançou EPs, participou de compilações, concorreu a prêmios… Por que não continuar como Telerama, que já tinha toda essa trajetória? 
Alinne: Era informação demais, tanto boa como ruim. Telerama foi a primeira banda que a gente teve na vida, então, quando a gente começou, as composições eram mais fraquinhas, e a gente tinha muitas limitações técnicas, muitas mesmo, e isso é natural. Fomos crescendo musicalmente, artisticamente, tecnicamente, pessoalmente, conseguimos definir um som que a gente gostava de fazer, mas a imagem da bandinha iniciante com uma garota desafinada tentando cantar ficou. Quem gostava da banda gostava pelas músicas, pelo que elas queriam dizer, não porque iam ouvir performances perfeitas. Mas ter gente que goste das suas composições não é suficiente para se trilhar um caminho mais profissional no Brasil. Aqui o pessoal aplaude quem executa com perfeição, não quem tem talento. Principalmente em Fortaleza, aplaudem-se os músicos, não os artistas. Os que executam, não os que criam. Daí começar um projeto novo, com a cara que a gente já tinha no final da Telerama, mas com a cabeça que a gente tem hoje aos (quase) 25 e 26 anos.

De que forma as duas bandas se relacionam? Quais são os pontos em comum e quais as diferenças entre elas?
Alinne: A grande diferença é a formação: somos dois em vez de quatro. As músicas vão no rumo das que lançamos no finalzinho da Telerama, como Sem Ter Amor e Arsenal. Somos a mesma banda, mas diferente. Uma continuação natural do que fizemos da outra vez, mas mais legal ainda (risos)! Ah! Como não temos ainda um repertório imenso de Banda Desenhada, incorporamos umas músicas da Telerama ao show. Vai ser sucesso!

No dia 17 deste mês, vocês tocam pela segunda vez no festival South by Southwest (SXSW), que acontece em Austin, no Texas. Vocês acham que essa experiência pode trazer uma eventual inserção da banda na cena americana?
Alinne: Meio que sem saber, a gente já estava entrando na cena americana como Telerama. Em setembro do ano passado, participamos de uma coletânea nacional em homenagem ao Guided by Voices com uma versão de Game of Pricks. A coletânea pouco repercutiu no Brasil – aliás, onde repercutiu, todo mundo só citava as mesmas músicas, tocadas pelas bandas mais conhecidas do circuito Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes, responsável por festivais como Porão do Rock, Goiânia Noise e Grito Rock) –, mas circulou bem nos Estados Unidos. Não só a coletânea foi comentada em diversos blogs, como a nossa versão foi apontada como destaque. O melhor foi a maneira como soubemos disso: um fã de Nova York nos contou. E aí ele já estava ouvindo a Banda Desenhada e perguntando quando a gente iria tocar em Nova York. Quem sabe não rola agora nessa ida?

Quais são os planos pra quando vocês voltarem do festival? Já tem previsão para o lançamento do primeiro EP da Banda Desenhada?
Alinne: O primeiro EP sai antes da viagem, até porque a gente quer levar material pra lá. O título é Banda Sonora – Igor, que adora trocadilhos, vai fazer piada com isso até não poder mais (risos) – e deve sair com umas quatro músicas inéditas. Os planos pra depois do festival se resumem a um só: casar!

Você e o Igor são os dois únicos integrantes da Banda Desenhada. Mas e nas apresentações ao vivo, sobe mais gente ao palco junto com vocês, pra dar conta de todos os instrumentos?
Alinne: A gente quer muito sempre ter alguém a mais no palco, mas é só mania de quem já teve banda completa. Vamos tocar só os dois no Dragão e muito provavelmente também no SXSW. Pra isso vamos usar samples de instrumentos. A bateria não é programada, montada em computador. É gravada pelo Igor, e a gente dá o play na hora do show. Assim também rola com algumas guitarras, baixo e sintetizadores. Eu continuo só na pandeirola. =(

Mais canções e informações no MySpace e no perfil da banda na Trama Virtual. No twitter, siga @banda_desenhada.