Há que mudar, mas sem perder a essência jamais

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Essas escadas meio art déco são um dos meus lugares favoritos na Rádio Universitária. (Divulgação)

A Rádio Universitária entrou no ar no dia 15 de outubro de 1981, depois de um mês de testes e pelo menos dois anos de articulações políticas – um jeito bonito de dizer que foi preciso muito jogo de cintura pra colocar no ar, em plena ditadura, uma emissora com coragem de abrir o microfone para vozes da esquerda, movimentos sociais, sindicatos, acadêmicos, artistas e estudantes.

Transmitindo direto da Reitoria de uma universidade federal – embora, por essas coisas da vida e das legislações em tempos autoritários, pertença formalmente à Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), entidade privada – ela fez dos saberes de professores e estudantes sua matéria prima, arrebanhando colaboradores e transformando bolsistas em profissionais. De tão apaixonados, estes últimos viraram funcionários e trabalham lá até hoje, cada um dono de uma história pessoal rica, inevitavelmente entrelaçada à da emissora que os acolheu na juventude.

Vindos de uma geração que fez questão de combater o regime militar, em passeatas, ocupações, apurações jornalísticas e seleções musicais, eles lutaram outras tantas batalhas para manter a Rádio aberta por 28 anos, em breve 30. A primeira foi quando o reitor José Anchieta Esmeraldo Barreto, que tomou posse em 1983, decidiu fechar o setor de jornalismo da emissora. Muitos funcionários foram transferidos para outros setores da UFC, onde não se sentiriam em casa e, assim, não poderiam desafiar ninguém. Outros permaneceram na Universitária FM, com aquela sensação incômoda de que algo estava faltando. Mas foi só Anchieta deixar o poder, substituído pelo professor Hélio Leite, que eles não demoraram a assumir as antigas funções e retomar a liberdade de expressão roubada, agora em uma casa nova – aquela que a maioria de nós conhecemos, na avenida da Universidade, 2910.

Depois, veio o governo Collor, que, entre os funcionários da Rádio Universitária, não é lembrado “apenas” pelo confisco das cadernetas de poupança e pelo impeachment. Foi também enquanto o alagoano estava no poder que foi extinto o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa (Sinred), o que acarretou o fechamento de emissoras universitárias em todo o país. Para que o mesmo não acontecesse com a nossa, bolsistas, funcionários, colaboradores e admiradores foram às ruas e organizaram atos para que a Rádio Universitária continuasse de portas abertas.

Já em 2006, pleno governo Lula, um susto: os jeitinhos usados para driblar a ditadura acabaram cobrando seu preço. A Rádio Universitária foi considerada irregular pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e fechou as portas por alguns meses. A situação foi contornada logo, quando o status que a emissora já exercia antes, o de abrigo para diversos projetos de extensão da UFC, foi formalizado. Surgiu o Nuproex (Núcleo de Divulgação em Radiodifusão de Programas em Extensão da Universidade Federal do Ceará), mas, enquanto isso não acontecia, os funcionários não cruzaram os braços e organizaram seminários, reuniões, oficinas – a única maneira que encontraram de manter a Rádio na pauta dos assuntos do dia.

É claro que, nos intervalos entre uma turbulência e outra, muita coisa boa aconteceu: programas inovadores foram criados, novos bolsistas ingressaram na Rádio, prêmios foram conquistados, parcerias nasceram, ouvintes foram cativados. E muita coisa boa continua a acontecer agora, neste período de águas mais tranquilas. É por isso que a Rádio Universitária fascina: graças às paixões e projetos que a movem, está em constante ebulição, mas não perde a sua essência.

Texto publicado publicado originalmente no blog do Jornal Jabá, como parte da cobertura do aniversário de 28 anos da Rádio Universitária.

Ouça a Rádio online.

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A juventude é uma arma quente

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Foto: Perto do gabinete do reitor, uma vista da Reitoria que eu nunca tinha enxergado antes. Essa UFC ainda tem muito o que revelar… (Débora Medeiros)

Esqueci o relógio em casa no dia da minha colação de grau – 25 de março de 2010. Estava com a cabeça em outro lugar, acho, curtindo aquela sensação que a gente só tem no próprio aniversário: é um dia comum pro resto do mundo, mas, pra nós, quer gostemos ou não de festa, a rotina parece reluzir misteriosamente. Fecha-se um ciclo.

Sentia isso também, quando peguei o ônibus de sempre, rumo à Reitoria da Universidade Federal do Ceará. Colação de grau especial é assim: no resto da Academia, a vida continua, ninguém vai encher a Concha Acústica, poucos vão assistir ou mesmo saber. Mas, no gabinete do reitor, havia 24 corações em festa.

Meu único convidado na cerimônia foi o professor Riverson Rios. Esperamos sentados na antesala do gabinete, falando da vida, dos respectivos passados e do futuro. Atencioso como só quem é docente por vocação consegue ser, ele me lembrou até o último minuto por que me sinto em casa no curso de Comunicação Social. E como quero voltar pra lá um dia.

Em pouco mais de uma hora, estava tudo feito: a ata fora assinada, o juramento repetido em uníssono, reitor, pró-reitor de graduação, professores e recém-formados discursaram. E pronto, virei jornalista. Deixei de ser café-com-leite. Não se trata mais de definir que cadeiras fazer, se permaneço ou não no estágio atual, onde almoçar. O ano se estende, enigmático, diante de mim, uma transição de 12 meses entre o fim da monografia e, querendo Deus, o início do mestrado. Onde trabalhar? Como conciliar com outros projetos, outras paixões? E, depois de 2010, a vida, não sei até quando, se estende na imprevisibilidade de uma só pergunta: vou voltar à UFC um dia? Terei a persistência, a paciência, a sorte para retornar como professora? Por mais que eu ame o jornalismo e queira vivenciá-lo por muitos anos, tenho a certeza de que, fatalmente, só me sentirei completa quando estiver ensinando no lugar onde aprendi tanto sobre a vida adulta.

Porém, mais uma vez, a rotina só reluzia, sem de fato mudar. O sol do Benfica era o mesmo, o sorriso das pessoas conhecidas, os abraços – de parabéns ou de olá. A Castelinho, ali na esquina, continuou sendo o ponto de convergência dos afetos. Gente que eu não via há semanas ou com quem falo todos os dias se sentou à mesma mesa, para montar o Canhotos, fanzine coletivo que começamos no primeiro semestre. Conversas, confissões, brincadeiras e muito amor se embaralhavam na miríade de pedaços de papel pela enésima vez.

E o fato de não haver uma ruptura, de tudo ser feito de mudanças tão sutis, confirma minhas suspeitas de que não há regras ou figurino fixos pra vida adulta. Os planos malucos não precisam acabar, não preciso me resignar a trabalhar com o que não gosto e cresci o suficiente pra equilibrar felicidade e responsabilidades.

Na verdade, a sensação é de que o melhor vai começar agora, que a diversão vai é ficar mais consciente. E aí, o que fazer? Transformar a cidade no meu playground ou explorar outras paragens? O futuro é um mistério e nada é tão libertador quanto um caminho cheio de bifurcações. E, se pra John e Belquior, “a felicidade é uma arma quente”, cresce a certeza de que a minha juventude também é.

No fim do dia, atravessei a rua pra pegar o ônibus com Bruno Reis. Os carros passavam furiosos ao nosso redor, a lua já ia alta no céu. A noite tinha sido um flashback caleidoscópico não só pra mim. É o Bruno, com aquela leveza sutil que sempre amei ao longo dos anos, quem observa: “Nem parece que o tempo passou, né?” É, nem parece.